31º Domingo do Tempo Comum

A Palavra que ouvimos na 1ª Leitura divide-se em duas partes:

a)            A primeira é formada pelos versículos 1 a 8 – os eleitos da terra. A destruição e o pânico do sexto selo se detêm. Os ventos que sopram dos quatro ângulos da terra simbolizam as forças destruidoras deste mundo e o anuncio do último dia. Os quatro anjos – seres a serviço de Deus – detêm a destruição. A salvação vem do Oriente, pois no Oriente nasce o sol e é na direção oriental que está o paraíso. A marca ou selo indica a pertença e a proteção. O número dos marcados é simbólico: 12 (perfeição) vezes 12 (doze tribos de Israel) vezes mil (totalidade) – equivale a uma multidão inumerável.

b)      A segunda parte é formada pelos versículos 9 a 17 (a leitura vai até o 14): a sorte dos eleitos no céu. Eles já alcançaram a glória e a vitória simbolizadas pela túnica branca (símbolo da glória celeste) e pelas palmar (símbolo do martírio). Constituem uma multidão inumerável, sem distinção de raças, a qual prorrompe num hino de louvor. Superadas as dificuldades, vivem já sem ansiedade. A salvação ou vitória se deve a Deus e ao Cordeiro; mas este dom ou graça só se realiza com a resposta humana. Tudo isso ocorrerá no futuro.

Aqui está o fundamental da leitura: esta visão do final deve suscitar interesse e entusiasmo para a luta do presente, na qual se consolida a eternidade.

A primeira carta de João apresenta incrível densidade apenas nos três versículos hoje lidos. O Pai nos deu um grande presente de amor: de Cristo, ressuscitado e exaltado aos céus, à direita do Pai. O autor repete: “E nós o somos!” A filiação divina é o fundamento de toda a santidade, pelo Batismo nos tornamos partícipes da santidade de Deus, o único Santo.

Não vivemos sempre como filhos de Deus, ora por nossa culpa, ora porque o mundo não nos conhece, como também não conheceu a Cristo. Mundo significa aqui tudo o que rechaça a salvação de Deus. Vivemos numa situação de gestação, de expectativa. Sem dúvida, semelhante ao agricultor que sabe ter semeado e espera, com impaciência, o dia da colheita, assim nós devemos crer e esperar o dia em que se porá de manifesto o que já somos pela graça de Deus. Quando Jesus se manifestar em toda a sua glória, seremos semelhantes a Ele. O veremos tal como ele é. Toda a visão que temos de Jesus Cristo pela fé limitada e imperfeita. Nossa atual condição não comporta a visão de Deus. Quando, porém, estivermos face a face com Deus, purificados pela esperança o veremos como é de fato.

O Evangelho é a pagina de abertura do grande Sermão da Montanha, que hoje nos apresenta as bem-aventuranças. Uma consideração inicial: as bem-aventuranças não são propriamente um ensinamento de Jesus, mas uma declaração aqui se percebe sua importância.

Na intenção do autor sagrado, o monte não é um acidente geográfico qualquer, mas é imagem do Sinai, o monte por excelência da tradição judaica, onde teve lugar a constituição do povo de Deus. Apresentando Jesus subindo ao monte, Mateus quer significar com isso que com ele vai ter lugar o ato fundacional do novo poço de Deus, tendo Jesus como seu novo Moisés.

É preciso enfatizar que as bem-aventuranças não são princípios abstratos, mas versam sobre situações concretas das pessoas que seguem a Cristo. As primeiras pertencem à pobreza, o pranto ou aflição, a fome e a sede, os maus tratos e a perseguição. Trata-se de situações de sofrimento físico que o membro do povo de Deus se vê obrigado a padecer por causa de sua dedicação à justiça, ou seja, por causa da construção de um novo modelo de sociedade chamado Reino de Deus. Não se deixa vencer por elas, mas as sofre com serenidade. A estes que vivem assim o realismo da vida, Jesus os declara bem-aventurados. Hoje devemos dizer enfaticamente o óbvio: bem-aventurado é sinônimo de feliz e de santo. Temo aqui uma sutileza que não podemos esquecer: o objeto da bem-aventurança de Jesus não são as situações, mas as pessoas que não se deixam derrotar por elas. Assim, o começo do ato de instituição do novo povo de Deus é um canto às pessoas que sofrem por fazer possível o Reino de Deus.

A bem-aventurança que abre o conjunto é a mais lembrada. Jesus chama “pobre” a quem, não tendo nada (sentido social da pobreza) Poe sua confiança em Deus (sentido religioso da pobreza). Ele põe, em primeiro plano, a pobreza real, sem a qual não é possível a pobreza espiritual. A pobreza espiritual não é outra coisa que a radicalização e a interiorização da pobreza real e, de nenhum modo, um pretexto para fazer mais confortável o cristianismo aos que seguem sendo ricos às custas dos pobres.

Conforme os estudiosos da Bíblia, as oito bem-aventuranças tem como chave de interpretação a primeira e a oitava: O Reino dos Céus é prometido aos pobres e aos perseguidos por causa da justiça. Uma nona bem-aventurança, nitidamente diferente dessas oito, desenvolve a oitava e supõe a situação concreta da Igreja primitiva perseguida.


Retirado do Site Presbiteros

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