Padre Ivan – 31 anos de Sacerdócio

Sabemos que toda vocação é sobrenatural, que não se trata de mérito pessoal. O chamado é sempre de Deus Pai, a iniciativa é Dele: “Não fostes vós que me escolhestes, fui Eu que vos escolhi”(Jo 15,16). Quanto à resposta, cabe ao homem responder livremente, pois somente a pessoa livre é capaz de seguir a Jesus Cristo.

Quando o Padre é pastor, quando ele faz questão de ser pastor, muito simplesmente, convive com suas ovelhas, chama-as pelo nome, conduzindo-as com bondade. Brinca com seu rebanho, canta, toca violão e dinamiza seus sermões, interagindo com todos.

Sabemos que ser padre não é uma tarefa fácil - é deixar tudo, é entrega-se nas mãos do Senhor!

Sua devoção filial e ilimitada à Nossa Senhora, o torna um dos seus filhos prediletos, assegurando ao senhor a proteção de uma Mãe amorosa, misericordiosa, e que responde com um amor enorme a esta sua dedicação a Ela.

Por tudo o que o senhor é, Padre Ivan, pelos seus 31 anos de Ordenação Sacerdotal, pelo que o senhor fez e pelo que faz, somos todos agradecidos ao serviço de sua vida religiosa, dedicada a Deus, à Igreja e à todos nós. O senhor é nosso irmão, guia espiritual e amigo!

Deus o conserve sempre assim, Parabéns!!!


Paz e Bem!

Davi, o corajoso!

Quando eu era criança e queria com outros meninos incentivar um amigo a fazer coisas inacreditáveis, usávamos sempre essa frase: “Duvido! Você não teria coragem”.

Como isso incentiva um jovem a fazer certas coisas que nunca faria por decisão própria! Muitas vezes, vivíamos diversas aventuras, porque alguém resolveu provar que ‘sim’, tinha coragem. O fato é que a coragem é própria do ser humano, de maneira especial do homem que, para não ser visto como covarde, é capaz de tomar decisões inconsequentes.

A virtude de ser corajoso não é uma característica exclusiva dos dias atuais. Conhecendo bem a Bíblia, percebemos que a coragem diz do homem que se relaciona com Deus. Há vários momentos em que é o próprio Senhor quem busca despertar em seus escolhidos o dom de ser “forte e corajoso” (conf. Dt 31,6). Podemos encontrar, na Bíblia, 82 vezes a palavra “coragem”, todas elas envolvendo um contexto de ordem de Deus.

Quando lemos sobre a vida de Davi, constatamos o quão forte e corajoso ele era. A Bíblia narra vários fatos que demonstram a coragem de Davi. Mas precisamos observar que não é uma virtude que surge da noite para o dia, até ser Rei de Israel e um valente guerreiro ele foi treinado por Deus, durante sua vida, para que essa característica fosse se desenvolvendo e se tornando nele um valor. Podemos confirmar isso quando o vemos prestes a desafiar o gigante Golias. O Rei Saul lhe diz: “Não és capaz de enfrentar esse filisteu. Tu és ainda um menino, e ele, um homem de guerra desde a sua juventude”. Davi prontamente lhe responde que cuidando do rebanho de seu pai, quando um leão ou um urso tomava um carneiro do rebanho ele os perseguia e matava, tirando-lhes a presa da boca (Conf. I Sm 17, 33 – 34). Deste modo podemos compreender que a coragem de Davi é uma qualidade desenvolvida pelas provas que foi enfrentando ao longo de sua vida.

Deus se utiliza de cada situação que vivemos para forjar o nosso caráter, e assim como com Davi, Deus quer usar de fatos do nosso dia a dia para firmar em nós virtudes que nos ajudarão na caminhada. Antes de tudo é preciso compreender que a verdadeira coragem não está ligada apenas a enfrentar gigantes, ursos ou exércitos. Depois podemos notar que há dois principais traços fortes em um homem verdadeiramente corajoso: a confiança em Deus e a capacidade de ser o que é.

Após a morte de Saul, Davi está refugiado com seus companheiros. Saul era o único empecilho para que Ele assumisse o reino, e agora morto já não poderá atrapalhar mais. Assim, ao saber da morte de Saul Davi poderia voltar tranquilo e assumir o reinado, mas antes de qualquer coisa Davi consulta o Senhor para tomar a decisão correta. Neste acontecimento vemos o primeiro traço marcante da verdadeira coragem: A confiança em Deus. “Depois disso, Davi consultou o Senhor: Devo subir a alguma das cidades de Judá?, perguntou ele. Vai, respondeu o Senhor. Davi retomou: Aonde irei? A Hebron” (II Sm 2, 1). Queremos resolver do nosso jeito, ir na direção que pensamos ser a melhor, porém é preciso, a exemplo de Davi, estar alicerçado em uma grande confiança em Deus para compreendermos que Ele tem o melhor para nós.

O segundo traço de um homem corajoso: não muda o que é para agradar as pessoas. Davi tem a coragem de ser o que é, mesmo quando criticado. “Micol, filha de Saul, veio-lhe ao encontro e disse-lhe: Como se distinguiu hoje o rei de Israel, dando-se em espetáculo às servas de seus servos, e descobrindo-se sem pudor, como qualquer um do povo! Foi diante do Senhor que dancei, replicou Davi; diante do Senhor que me escolheu e me preferiu a teu pai e a toda a tua família, para fazer-me o chefe de seu povo de Israel. Foi diante do Senhor que dancei. E me abaixarei ainda mais, e me aviltarei aos teus olhos, mas serei honrado pelas escravas de que falaste” II Sm 6, 20 – 23. Quantas vezes queremos agradar as pessoas assumindo o que eles pensam sobre nós e assim não vivemos a nossa verdade e nos tornamos um resultado da expectativa que o outro coloca sobre nós. É certo que devemos ouvir a opinião das pessoas que nos amam e querem nos ajudar, porém, há primeiro que mirar o que o Senhor pensa sobre nós, afinal “temos buscado a aprovação dos homens ou a de Deus?” (Conf. Gl 1, 10). É ao Senhor que devemos agradar!

Davi não tinha como prioridade o que os outros diziam, para ele o mais importante é o que o Senhor pensava a seu respeito. Não podemos permitir que as pessoas nos roubem de nós mesmos. E só o Espirito Santo nos dá a liberdade para sermos verdadeiramente quem somos.

Peçamos que Deus nos dê a graça de aproveitarmos cada situação que vivemos para que assim o Senhor construa em nosso caráter a riqueza da verdadeira coragem como forjou em Davi. Fazendo com que cresça em nós a confiança e a firme decisão de seguirmos a inspirações Dele para que não nos tornemos um resultado do que as pessoas pensam e pedem de nós.

José Paulo Neves Pereira

Missionário da Comunidade Canção Nova

14º Domingo do Tempo Comum

O Evangelho deste domingo está entre as páginas mais intensas e profundas de todo o Evangelho; ele, na verdade é composto de três partes. A primeira é uma oração: “Te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra”.

A segunda é uma narração dos feitos salvíficos de Deus de Deus em favor do seu povo: a revelação “destas coisas aos pequeninos”, a entrega, por parte do Pai, de todas as coisas ao Filho – “Tudo me foi entregue por meu Pai” e a profunda intimidade entre o Pai e o Filho que resulta na “revelação” do rosto paterno de Deus àquele “a quem o Filho o que quiser revelar”. Essas duas primeiras partes, oração e memória, nós podemos afirmar que são “eucarísticas”. A terceira parte é um convite: “vinde a mim”.

Os destinatários da revelação feita pelo Pai são os pequeninos, os humildes, os simples. Os pequeninos deste Evangelho, são em primeiro lugar os discípulos de Jesus; todo e qualquer discípulo de Jesus, como é afirmado: “quem der, nem que seja um copo d’água fria a um destes pequeninos, por ser meu discípulo, receberá a vida eterna”.

As coisas que o Pai escondeu “aos sábios e entendidos” consiste no “mistério do Reino dos céus”, como ouviremos no Evangelho do próximo domingo: “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus”.

Nesta perspectiva, no entanto, encontramos Jesus como o mais pequenino entre os pequenos, o mais humilde entre os humildes, o mais simples entre os mais simples. Tal imagem é evidenciada pela figura real, plena de contradições, apresentada na primeira leitura: o rei, o justo, o salvador. O rei é humilde e vem sentado num jumento; é justo porque vem eliminar “os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém e quebrar o arco de guerreiro”, mas o seu estandarte é a paz; é simples mas tem um “domínio” que se estende de mar a mar e de rios a rios, “até aos confins da terra”. Este rei do qual fala o oráculo é Jesus Cristo.

Estas “contradições” do Rei-Messias está ainda expressa na coleta da missa de hoje: é pela humilhação, pela queda, pelo rebaixamento, pela desclassificação do Filho que o Pai reergue o mundo decaído. Esta verdade revelada aos pequeninos nos remete a uma aclamação eucarística: “Jesus Cristo deu-nos a vida por sua morte” (Aclamação da Oração Eucarística IV).


Diocese de Limeira

Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos

Os textos da Liturgia da Palavra desta Solenidade não têm como objetivo narrar feitos gloriosos das Testemunhas de Cristo, mas como o Senhor faz triunfar aqueles que o querem sempre aio seu lado e que não se perdem em especulações, mas sabem com a clareza do “Pai que está nos céu”.

A 1ª Leitura nos falou da Igreja nascente que vê seus “membros” padecendo a tortura e a espada e nos apresenta, passando pela cruz, os três discípulos que experimentaram antecipadamente sobre o Tabor o brilho da glória que sucede à morte injusta dos justos: Pedro, Tiago e João. Pedro está preso nos dias dos “Pães Ázimos”, dias da páscoa judaica e dias em que a Igreja nascente provavelmente também celebrava a memória da Páscoa de Cristo.

O texto é eminentemente pascal: Pedro está aferrolhado e vigiado por guardas, como Jesus estava no sepulcro, dormia e foi acordado por um anjo. Os termos “dormir” e “acordar” no Novo Testamento são usados para indicar a morte e a ressurreição. O texto se conclui com uma frase que se liga perfeitamente ao Salmo Responsorial (Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar), também esse pleno de “tonalidades” e “cores pascais”: “de todos os temores me livrou o Senhor Deus”.

Ouvimos na 2ª Leitura “o testamento de Paulo”, prestes a “ser derramado em sacrifício”, às portas do “momento da sua partida”. Paulo não se vitimiza, sabe que a única vitima é Jesus Cristo. Sabe também que para receber a coroa de justiça, das mãos do justo juiz, para ele reservada, é preciso passar pelo processo da Kenosis, pelo qual passou Jesus. Assim como toda a vida de Jesus foi um percurso “kenótico”, toda a vida de Paulo foi uma experiência de combate do bom combate, de guardar a fé e de completar a corrida do anúncio do Evangelho.

Também Paulo “reproduz” o “Salmista”: “Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu”, porque “o Senhor esteve ao meu lado e me deu forças”. E mais, “O Senhor me libertou de toda angústia”, “fui libertado da boca do leão”. A Glória para Paulo reside no fato de ter conquistado tantos fieis para Cristo, ele que também foi alcançado por Cristo. Por isso perto de “completar sua corrida” afirmou: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne vivo-a na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

Esta fé no Filho de Deus pela qual Paulo vive, é a mesma professada por Pedro no Evangelho de hoje que se abre com uma pergunta, da parte de Jesus, “capciosa” e cheia de trocadilhos: “Quem dizem os homens (com “h” minúsculo) que é o Filho do Homem (com “H” maiúsculo)? Para Santo Ambrósio “a opinião da multidão também não é sem importância” porque ela é baseada não na revelação, mas na expectativa gerada pelo “extraordinário”, o que resulta uma imagem limitada e limitante de Jesus e de sua missão: ele é “algum dos profetas”.

O segundo ponto de interrogação é mais direto e intimo: “vós, quem dizeis que eu sou?”. A resposta de Pedro não se baseia no “extraordinário humano”, mas naquilo que vem do alto: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Também Jesus revela a Pedro coisas que vem do alto: a “construção” de um novo povo (Igreja) que tem como fundamento a Pedra da profissão de fé de Pedro. Então, porque Pedro se tornou uma “porta da fé” Jesus lhe confia as “chaves do Reino dos céus”.


Diocese de Limeira

27 de Junho – Dia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, senhora da morte e rainha da vida

A devoção à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro começou a ser propagada a partir de 1870 e espalhou-se por todo o mundo. Trata-se de uma pintura do século XIII, de estilo bizantino. Segundo a tradição, foi trazida de Creta, Grécia, por um negociante. E, desde 1499, foi honrada na Igreja de São Mateus in Merulana.

Em 1812, o velho Santuário foi demolido. O quadro foi colocado, então, num oratório dos padres agostinianos. Em 1866, os redentoristas obtiveram de Pio IX o quadro da imagem milagrosa. Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi colocada na Igreja de Santo Afonso, em Roma. De semblante grave e melancólico, Nossa Senhora traz no braço esquerdo o Menino Jesus, ao qual o Arcanjo Gabriel apresenta quatro cravos e uma cruz. Ela é a senhora da morte e a rainha da vida, o Auxílio dos cristãos, o socorro seguro e certo dos que a invocam com amor filial.


Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, rogai por nós!

Conhecemos uma árvore de Deus por seus frutos

Só se conhece uma árvore, quando ela vive aquilo que prega e não faz da Palavra de Deus um meio para se enriquecer e para se tornar mais do que os outros.

“Cuidado com os falsos profetas: Eles vêm até vós vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes” (Mateus 7, 15).

Nós, na maturidade da fé, não podemos nos deixar encantar por palavras bonitas, palavras que parecem prodigiosas, mas, no fundo, são enganosas. Falar de Deus não é difícil não! Hoje existem cursos, artes de oratória e treinamentos para que se fale tudo que se possa de Deus, muitas vezes, de modo até melhor do que nós cristãos. Conheci gente que nem acreditava em Deus, mas sabia tudo da Bíblia – leu, estudou, analisou, criticou e fez dela o que quis.

Conhecemos uma árvore, quando ela é de Deus, pelos frutos que ela dá e, às vezes, achamos que os frutos vão fazer muitos milagres, curar ali e aqui, coisas que satisfaçam aquilo que nós queremos. Os frutos que Jesus nos fala são os frutos do Espírito.

Só se conhece uma árvore quando ela é boa, quando ela é generosa, quando ela é afável e mansa, quando ela, na verdade, vive aquilo que prega e não faz do Evangelho, não faz da Palavra de Deus, um meio para se enriquecer e para se tornar mais do que os outros.

Não nos convém julgarmos nenhuma religião, não nos convém julgarmos nenhum homem, nenhuma mulher, porque o julgamento cabe somente a Deus; mas cabe a nós termos o discernimento e a sabedoria para não sermos iludidos e enganados no mundo em que nós vivemos.

A Igreja, desde os seus primórdios, tem sofrido devido a vários daqueles que se dizem pregadores, seguidores do Senhor e, na verdade, não vivem ou não pregam o Senhor como os apóstolos o faziam. Os tempos se passaram e se multiplicam os  falsos profetas e se multiplicam as falsas igrejas. É verdade que vivemos no mundo da liberdade religiosa; e como nos faz bem a liberdade de culto, a liberdade de pregar, a liberdade de anunciar [nossa fé]. A liberdade só não pode ser um pretexto para o erro, para a ilusão e para o engano.

Existem tantas coisas boas, existem tantas pregações maravilhosas, existe muita vivência de Deus em outras igrejas que não são católicas; existe muita bondade, existe muita vivência do mandamento de Jesus até em igrejas que não são cristãs, mas não cabe a nós dizermos que tudo é bom e que basta falar de Deus. Este talvez seja o maior dos enganos e um tremendo mal para os nossos dias.

É preciso discernir o que, de fato, é de Deus, é preciso olhar as obras e os frutos que estão sendo gerados. Não são imagens bonitas na televisão, não é o choro, não são as lágrimas que esperamos da pregação do Evangelho; o que se espera é que essa pregação favoreça a união, o bem e, sobretudo, o amor entre os irmãos.

Onde se vive o amor, Deus ali está presente! Onde se prega o dinheiro, curas e tantas outras coisas acima do amor de Deus devemos questionar e nos rever e olhar para dentro de nós e perceber se estamos sendo verdadeiros profetas de Deus e se estamos verdadeiramente vivendo Seus mandamentos ou não.

Que Deus hoje nos dê a graça de olharmos para dentro de nós para não nos enganarmos e não enganarmos a ninguém na vivência da Palavra do Senhor!

Deus abençoe você!

Padre Roger Araújo

Sacerdote da Comunidade Canção Nova

Espírito Santo, amor de Deus derramado em nossos corações

“E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5, 5).

Esta passagem bíblica nos ensina que a esperança não nos decepciona. Ela só não vai nos decepcionar se o seu fundamento for o amor de Deus, se ela estiver alicerçada em Deus. Porém, nós humanos queremos "pirateá-la" e, assim, criamos uma pseudoesperança, que não é derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, mas por aquilo que nós mesmos buscamos. Desse modo, encontramos pessoas que confundem esperança com suas próprias expectativas, por isso surgem questionamentos como: “Como a esperança não decepciona se eu estou cheio de mágoas e tristezas?”

Essa esperança que o deixou decepcionado é uma esperança falsa, que não está baseada no amor de Deus nem no Espírito Santo. Existem dois tipos de esperança: uma que vem de Deus e outra que é criada e manipulada pelo homem.

Muitas vezes em que nossas expectativas não são atendidas é gerada em nós a decepção com Deus, com os outros e com nós mesmos. Com Deus, porque criamos uma esperança falsa de que o Senhor faria tudo o que quiséssemos, que Ele iria nos obedecer. Com os outros ao criarmos em nosso coração a expectativa de que fulano iria nos falar algo, fazer isso ou aquilo e isso não aconteceu.

Com isso eu lhe pergunto: Você já se decepcionou com alguém? Você já foi causa de decepção para os outros? A esperança baseada em nossa vontade sempre nos decepciona! Quantas feridas nós trazemos porque esperávamos determinadas atitudes dos outros e eles nos decepcionaram porque não se encaixaram no que queríamos deles. E por último, há a decepção com nós mesmos, quando planejávamos fazer algo, mas acabamos fazendo outra coisa; e não entendemos como é que fizemos aquilo. Criamos uma mentira a nosso respeito, nos vemos maiores do que realmente o somos; e quando descobrimos a nossa verdade vem a decepção. As medidas da esperança são as medidas do Espírito de Deus. Contudo, todos esses exemplos que eu dei são formados pelas medidas humanas, por isso nos ferem.

Muitas das nossas decepções são geradas pelas expectativas que criamos. Todas as vezes em que Deus não nos obedece, que os outros não nos obedecem e que não atendemos as nossas expectativas nós nos decepcionamos, ficamos chatos e intransigentes.

“Os que vivem segundo a carne gostam do que é carnal; os que vivem segundo o espírito apreciam as coisas que são do espírito” (Rm 8, 5).

Quem vive dessa esperança carnal, quem se enche dela, vive cheio de decepções com a Igreja, com o Papa, com o padre, com o marido, com os filhos e até consigo mesmo, porque ninguém consegue atender à expectativa que é baseada em um amor-próprio. Quem são as pessoas que matamos em nossos corações? As pessoas que nos decepcionaram, as pessoas que não tiveram a competência de fazer como e o que queríamos e, com isso, nosso coração vai se transformando em um cemitério em que colecionamos sofrimentos. A nossa esperança, criada por nós, se rebela contra a vontade de Deus.

Essas aspirações da carne são uma rebeldia contra Deus. Quem vive dessas esperanças pessoais e carnais não se submete aos acontecimentos da vida e quer o mundo ao seus pés.

A Palavra continua: “Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é dele” (Rm 8, 9).

O Espírito de Deus, que mora em nós, vai nos dando a face de homens e mulheres ressuscitados e fazendo-nos enxergar que a esperança, na qual construímos a nossa vida, tem nos decepcionado por ser nossa criação; não de Deus. E nos ensina que o mundo não é obrigado a seguir o que nós queremos, quando e como queremos.

A esperança é fruto dessa presença de Deus, que habita em nós, e o que torna o nosso coração consagrado a Ele é a presença do Seu Espírito. Se o nosso coração é habitado por uma esperança carnal ele ficará deformado e diferente do Coração de Jesus. A esperança não nos decepciona quando deixamos Deus conduzir a nossa vida.

Quero denunciar uma dupla que nos prejudica: a falsa esperança e o hábito de pôr a culpa nos outros. Quando nós criamos uma falsa esperança esta se torna companheira do hábito de colocarmos a culpa nos outros. E, assim, nos decepcionamos, nos tornamos chatos, velhos, insuportáveis e intransigentes. E como mudar isso? Deixando que a esperança verdadeira conduza a nossa vida e nos abrindo à experiência de nos deixar conduzir por Deus.

Muitas pessoas hoje estão sozinhas porque todos aqueles que não se encaixaram em seu projeto de vida e não fizeram o que elas queriam foram eliminados por elas. Muitas das nossas decepções não aconteceram porque os outros nos machucaram, a maior parte delas vem da esperança boba que criamos de que o mundo vai nos obedecer. Aquele amor da esposa que, a todo momento, quer transformar seu marido no que ela quer; o exigir que o outro seja como queremos para amá-lo, o querer que o seu filho siga a profissão que você quer. Tudo isso se chama egoísmo. O mesmo vale para a religião: se minha Igreja não me dá o que eu quero, como e quando eu quero eu troco de Igreja, porque eu criei um roteiro e a vida não seguiu esse roteiro.

Mas a verdadeira esperança não nos decepciona! Devemos fixar a nossa esperança somente em Deus, porque se esta está em nós mesmos só trará decepção. A verdadeira esperança vem de um coração habitado por Deus.

Padre Fabrício

Sacerdote missionário da Comunidade Canção Nova

12º Domingo do Tempo Comum

Um mundo dominado pelo medo faz com que construamos relações baseadas na desconfiança. O outro constitui sempre uma ameaça para mim. Os muros das nossas casas são cada vez mais altos; câmeras de segurança são espalhadas nas ruas, nos lugares públicos e privados. Nos tornamos a cada dia prisioneiros dentro dos nossos próprios lares.

O medo é a mais clara manifestação do nosso instinto fundamental de conservação. O medo é o instinto natural de defesa contra absolutamente tudo que nos arranca o que temos de mais precioso: a vida. Ele é a pronta resposta a um perigo que se manifesta clara ou veladamente. O medo se manifesta diante do perigo mais temido por todo ser vivente: a morte; se manifesta diante dos perigos aparentemente pequenos que ameaçam a nossa tranqüilidade, a nossa saúde física, o nosso mundo afetivo, a nossa vida financeira, familiar, profissional, etc.

Para o medo humano não tem escola. Ele chega improvisamente diante do perigo, “as coisas se encarregam por si mesmas de incutir-nos medo; o temor de Deus, ao contrário, se deve aprender. ‘Vinde filhos, escutai-me’ diz um salmo ‘vos ensinarei o temor do Senhor’ (Sl 33,12)” (R. Cantalamessa. Dal Vangelo della vita. PIEMME, Milano, 2012, p. 89-90).

O Sentido do temor de Deus é completamente diferente daquele do medo. “Temer a Deus é o princípio do saber” (Sl 111,10), isto é, tem sua fonte exatamente no saber quem é o Senhor. Se o medo nasce da obscuridade do desconhecido, o temor de Deus nasce do conhecimento de Deus. O temor do Senhor é um maravilhar-se diante dele, como diante de alguém que é imensamente maior. Como o povo que ficou todo “tomado de temor e glorificava a Deus” diante do jovem filho da viúva de Naim que estava morto e voltou a viver (Lc 7,16).

Temer a Deus é outro nome para o estupor, para o maravilhar-se diante dele e louvá-lo. Esse tipo de temor é irmão gêmeo do amor. A Oração do dia da missa de hoje é muito significativa porque coloca esses “sentimentos” como inseparáveis para aqueles que são firmados no amor de Deus e por Ele conduzidos: “Dai-nos por toda a vida a graça de vos amar e temer”. Ele, o temor, é o receio de desagradar ao amado que se percebe em toda verdadeira relação amorosa.

O temor implica uma segurança inabalável no outro e constitui uma graça. O temor é também uma forma de profissão de fé, como nos atesta a Antífona de Entrada: “O Senhor é a força do seu povo, fortaleza e salvação do seu ungido” (O hinário litúrgico da CNBB propõe a seguinte tradução: “De seu povo ele é a força, salvação do seu ungido, salva, Senhor, teu povo, socorre os teus queridos”. CNBB, Hinário litúrgico, 3º fascículo, domingos do tempo comum anos a,b e c. Edições Paulinas, São Paulo, 1991, p. 122).

Na 1ª Leitura, para o profeta Jeremias a relação com o Senhor é uma relação de inteira confiança. O Senhor é aquele ao qual, nos momentos de tribulação e angústia, o crente pode declarar sem medo a sua causa, porque quando ele permite que o cristão seja provado é com o objetivo de “ver os sentimentos do (seu) coração” e ao mesmo tempo ele se coloca ao lado do perseguido e humilhado “como forte guerreiro”. Maravilhado, então, o profeta convida: “Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, pois ele salvou a vida de um pobre homem”.

Ele mesmo, o Senhor, tem se apresentado como pastor do seu povo, que é capaz de dar a vida por suas ovelhas (2ª ant. da comunhão), por isso todos os olhos se voltam esperançosos para ele que no tempo certo sacia abundantemente a todos (1ª ant. da comunhão).

Como sempre o Evangelho nos ajuda a olharmos para os nossos dias com olhar transfigurado e lança luzes sobre o nosso cotidiano. O nosso tempo é um tempo de angústia e a ansiedade e o medo tem se tornado as doenças por excelência e principais causas de infartos e suicídios. Como se pode explicar essa situação se na atual conjuntara temos tantos recursos, em relação ao passado, que nos garantem segurança econômica, planos de saúde, meios para enfrentar doenças e formas para retardar o envelhecimento e a morte? Ou será que na nossa sociedade diminuiu o temor de Deus e quanto mais se diminuiu o temor de Deus se cresce o medo dos homens? Os adolescentes e jovens que perderam o temor dos pais, que por sua vez perderam o temor de Deus, são mais livres e seguros de si?


Diocese de Limeira

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Na celebração eucarística, realiza-se a promessa de Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão, viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha vida” (Jo 6,51).

Depois de realizar a multiplicação dos pães, Jesus, sensível à multidão entusiasmada pelo miraculoso alimento, revela que o “sinal do pão” é ele mesmo: “pão vivo que desceu do céu”, novo dom de Deus à humanidade. Comendo do pão e bebendo do cálice da Eucaristia, recebemos Jesus como alimento e bebida: sua vida doada para a vida do mundo, até a efusão de seu sangue, torna-se nossa vida, para a eternidade. “assim Jesus manifesta-se como o pão da vida que o Pai eterno dá aos homens” (Sacramentum Caritatis, n.7).

A multidão revelou-se sensível aos problemas da fome que afligem o corpo. O Evangelista reage e convida à busca do pão que alimenta o corpo e fortalece o espírito. A palavra de Jesus e seus gestos são o “pão” do qual a multidão tem maior necessidade. Um alimento que não só imortaliza, mas que projeta a existência ao futuro, destrói a morte em perspectiva da ressurreição. Jesus como pão, diferente do maná do deserto, assegura o êxito da liberação e a vida para o mundo futuro.

“E o pão que eu vou dar é a minha carne, para que o mundo tenha vida”. Jesus aqui está se referindo ao mistério de sua encarnação. A realidade do Espírito de Deus manifesta-se e comunica-se na realidade humana. Através desta, o dom de Deus torna-se concreto, história e adquire realidade para as pessoas humanas. Nesta mesma realidade, o Filho de Deus, fazendo-se “carne”, transforma-se em dom de vida e de amor do Pai para o mundo. O dom da vida é oferecido a todos e se comunica através da realidade humana Jesus.

“Como pode esse homem dar-nos a sua própria carne?”. Os judeus não entendem a metáfora do pão e sentem-se desorientados e inseguros. Não entendendo o que significava “comer a sua carne”, buscam explicações e não as encontram. Jesus apenas quis lhes dizer que o “pão” é a sua própria realidade humana.

Jesus prossegue afirmando: “Se vocês não comem a carne do Filho do Homem e não bebem o seu sangue, não terão a vida, em vocês”. É uma referência ao sacrifício da cruz. Ele dará sua carne, sendo imolado. Nesta hora manifestará a vida, o Espírito, o amor e a glória. Não terão vida, isto é, não haverá realização, senão pela assimilação daquilo que Jesus é. “Assimilar”, neste contexto, tem o sentido de aceitação e de adesão.

O que dá vida aos humanos é o “comer sua carne e beber seu sangue!”, isto é, assimilar sua realidade humana. Na perspectiva eucarística, Jesus é novo maná, alimento que fortalece e vivifica. A Eucaristia é o memorial de sua vida e morte, é dom que comunica seu amor e sua vida. Da parte dos seguidores de Jesus, a Eucaristia é aceitação que gera nova conduta. O dom recebido impulsiona à doação. É o amor que responde com gestos de amor solidário.

O “comer da carne e o beber do sangue” produz íntima comunhão com Jesus e faz o discípulo viver em estreita identificação com ele. A aceitação de Jesus é sempre adesão de amor, que estabelece comunhão de vida que procede do Pai. Comungando o corpo e o sangue de Jesus Cristo, nos tornamos participantes de sua vida divina de modo sempre mais adulto e consciente. Cristo alimenta-nos, unindo-nos a ele (Cf. Sacramentum Caritatis, n.70).

Na 1ª Leitura, a Eucaristia é memorial da presença de Deus na história de seu povo. “Deus o alimentou com o maná, que nem você e nem seus antepassados conheciam”. Na história caminhada do deserto, o maná se transformou no sinal da presença amorosa e fiel de Deus no meio de seu povo. Alimentando-se desse dom, o povo tinha forças para olhar apara o futuro e caminhar em direção à Terra Prometida.

Na 2ª Leitura, assim como na experiência do deserto, os hebreus alimentando-se do maná, foram se transformando no povo de Deus. Hoje, na opinião de Paulo, a participação e a comunhão no corpo e sangue de Jesus, o novo maná nos transforma em membros do Corpo Cristo, a comunidade eclesial, o novo Povo de Deus a caminho da nova terra e do novo céu.

O discurso simbólico do Evangelho de João, referindo-se ao comer e beber, ao pão e vinho, ao corpo e sangue, é um evidente direcionamento à ceia eucarística, celebrada nas comunidades cristãs. Não se trata de um simples ágape, mas do memorial da morte e da ressurreição do Senhor (ao Filho do Homem). Comer do pão partido e beber do sangue derramado é um gesto simbólico, por meio do qual a comunidade cristã (e pessoalmente cada cristão) assimila como seu o projeto de vida de Jesus Cristo.


Diocese de Limeira

Ore por todos que lhe fizeram mal!

Os antigos achavam que bastava amar o próximo e que o inimigo podia ser odiado. Não, o amor é para todos. Eu devo amar os meus amigos com o amor que um amigo merece, com a consideração, com o respeito, com o lugar muito singular que ele merece no meu coração. Eu devo gostar demais dos meus amigos, porém, eu não preciso gostar tanto de quem se comporta comigo com inimizade, mas eu não vou tratá-lo mal da mesma forma. Quem não me quer bem, eu posso e devo querer bem a essa pessoa! Não é porque você não me ama, que eu também não vou amá-lo. Vou amá-lo com o amor que você merece: o amor-respeito, o amor-consideração, o amor que traz paz ao meu coração; mas também não vou tratá-lo melhor do que os outros, porque senão pareceria hipocrisia. Vou amar você com aquele amor, que é universal, um amor que todos os seres humanos merecem.

Se existe uma coisa que ninguém merece, nem a pior das pessoas, se há alguém que me faça mal, que lhe faça mal, ele não merece – sobretudo, eu e você não merecemos –, é carregar em nosso coração ódio ou ressentimento de alguém. Mas pode ser que o outro até me persiga, faça mal a mim, me prejudique, me calunie, nesse caso eu vou dar um passo mais acertado nesse amor que se chama “oração”.

A melhor resposta que eu posso dar a quem já me prejudicou nesta vida ou de alguma forma ainda me prejudique falando mal de mim, me caluniando, não me querendo bem, é orar por ele. E orar é orar mesmo, é abrir meus lábios, abrir meu coração e dizer: “Senhor, abençoe este meu irmão! Abençoe-o mesmo, Senhor! Dirija seus passos, dirija sua vida, ilumine os seus caminhos!”. Eu não posso e não tenho nada mais sincero para dar a ele a não ser a oração que venha do fundo do meu coração.

Quando oro por quem me faz mal, eu faço um bem enorme a mim mesmo. Eu estou cuidando da saúde do meu coração, eu estou cuidando do meu bem-estar e estou tirando as pedras de tropeço do caminho do próximo.

Se tudo que Deus fez foi nos amar, mesmo que sejamos pecadores, o melhor que nós podemos dar ao outro é aquilo que o Senhor fez em nossa vida e em nosso coração. Como Deus nos amou, como Deus cuida de nós, nós devemos amar e cuidar até a quem não nos quer bem! Por isso, eu hoje rezo e peço que Deus abençoe aqueles que me fizeram mal em algum momento, em algum caminho desta vida!

Que Deus abençoe você!

Padre Roger Araújo

Sacerdote da Comunidade Canção Nova