Escutar a Palavra de Deus

Na parábola do semeador Jesus mostrou como há diversas maneiras de se receber a Palavra de Deus, a qual Ele compara com uma semente. Segundo Santo Agostinho, "escutar a Palavra de Deus é como se alimentar de Cristo". Ele explica que há duas mesas na Igreja: a mesa da Eucaristia e a mesa da Palavra. Com isso ele patenteava que a Palavra de Deus é um alimento espiritual. Quem bem se nutria dessa refeição santificadora era a Santíssima Virgem Maria, a irmã de Marta e Lázaro, elogiada por Jesus pelo fato de O escutar atentamente, deixando todos os outros afazeres. Aliás, o próprio Cristo aconselharia: “Procurai, antes de tudo o reino de Deus e tudo mais vos será dado em acréscimo” (Mt 6,33).

Portanto, estar atento à Palavra constitui a melhor parte da vida do batizado. Ao deixar Deus entrar na mente pela Sua Palavra, meditando-a profundamente e fazendo dela a força e o sustentáculo de cada instante o cristão age menos pela emoção, mas solidificado em profundas raízes espirituais. Isso porque há então uma conexão admirável dos esforços humanos com o pensamento divino e se colhe um fruto tanto mais saboroso quanto maior for a docilidade em acatar as inspirações celestes advindas da Palavra.

A grande questão é saber discernir a voz de Deus da voz humana. Ele fala a cada um de maneira diferente. Faz ressoar a Sua Palavra por meio de outras pessoas; por meio dos acontecimentos tão repletos dos gestos divinos; das provações de cada hora; mas, sobretudo, é claro, pela Escritura Sagrada ouvida na Liturgia, que é o lugar privilegiado no qual Deus se faz ouvir; e, ainda, na conversa pessoal com Ele numa leitura bíblica individual.

Tanto isso é verdade que a mesma passagem da Bíblia cada vez que é refletida traz novas mensagens para a alma de acordo com suas necessidades naquele momento. O citado Santo Agostinho lia e relia muitas vezes certos trechos bíblicos para que pudesse entender o que Deus lhe queria comunicar.

Quem assim procede percebe a reciprocidade da parte do Espírito Santo que exige uma persistência em querer discernir Sua luz, que ilumina, guia e salva. Desenvolve-se, desta maneira, uma amizade pessoal com Deus, a capacidade de perceber as minúcias de Seus recados, que, muitas vezes, parecem interpelações que cumpre sejam analisadas. Elas dizem a respeito a nós mesmos, aos que estão em nosso derredor e à nossa relação com Ele.

Por tudo isso cumpre que se viva na presença de Deus Pai, que quer falar a cada um a cada instante num colóquio repleto de luzes, mas tantas vezes exigente, provocador, requerendo sempre um esforço maior em busca da própria santificação e da do próximo. Com efeito, o ato de escutar a Palavra que gera a fé é não só a escuta da palavra escrita, mas também a escuta da palavra interior pronunciada pelo Espírito Santo no íntimo da consciência.

Isto supõe evidentemente empenho existencial que envolva todas as potencialidades humanas, uma vez que o Todo-poderoso age em cada um e com cada um.

No Evangelho Cristo compara a Sua Palavra a uma semente que produz mais ou menos abundantemente de acordo com a qualidade do terreno. Esta Palavra, segundo a Carta aos Hebreus, é como a “espada de dois gumes” que “penetra até dividir alma e espírito, junturas e medulas. Ela julga as disposições e as intenções do coração” (Hb 4,12). Eis por que sempre que ouvida com humildade ela é transformante, operando uma cristificação radical, por isso é necessário sempre a atitude de Maria, que disse ao Anjo: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

O efeito da Palavra de Deus depende, assim, do empenho de cada um sempre aberto ao diálogo com o Criador. É preciso deixar que a Palavra se apodere inteiramente do coração que vai assim ao encontro com as Pessoas Divinas, ou seja, ao diálogo inefável da dileção profunda na qual se responde sinceramente a Deus, que fala e que exige uma atitude obediencial. Por este acatamento é que a alma se torna terra boa, produzindo fruto cem por um!

Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho
Retirado do Blog da Canção Nova

Vale a pena sonhar

Era uma manhã de sábado enquanto caminhava pelo vilarejo do litoral baiano, uma paisagem, entre tantas, me chamou atenção: uma casinha com alpendres, varandas e muitas flores nativas, daquelas bem simples, que nascem e crescem sem exigir cuidados, com cores diversas e vibrantes, beleza simples e original.

Atraída pela beleza, aproximei-me da casa e, como não havia ninguém, fiquei bem à vontade para observar os detalhes. Em pouco tempo percebi uma placa pendurada no alto do portão central, onde estava escrito escrito: "Vendo, troco ou alugo. Faço qualquer negócio". Logo pensei no proprietário da casa. "Por que será que está tão decidido a se desfazer desta propriedade?"

A casa parecia bem planejada. Tinha detalhes de bom gosto, sinais de delicadeza. Deduzi que se o dono estava assim tão disposto a se desfazer dela, certamente seus sonhos teriam se perdido no tempo.

Já faz alguns anos que vivi este fato, mas até hoje penso no assunto. Dizem que sonhos não envelhecem, eu concordo. Aliás os sonhos nos mantêm vivos. "Quem deixou de sonhar já parou de viver...", diz o poeta.

Bom, se pudesse teria me arriscado a dizer ao proprietário daquela casa: "Não desista dos seus sonhos!". Ou diria ainda para ter calma antes de abrir mão de tudo. Na hora das decisões é sempre prudente ponderar entre o sentimento e a razão. Onde estarão os motivos que o levaram a construir uma casa tão bonita?

E quanto a você que agora lê meus escritos de um fim de tarde: Por onde andam seus sonhos? Quer falar sobre isso? Pode ser que, por algum motivo, também tenha colocado uma "placa de venda" neles, abrindo mão deles. Ou pode ser também que não tenha se desfeito da "casinha", mas vive nela por viver... Por alguma razão, tenha perdido o entusiasmo e o encanto pela vida. Neste caso, o pior é que todas as vezes em que pensa nos detalhes de seus sonhos é como se tocasse em feridas da alma, o coração aperta e dói. Eu sei, não é fácil, mas é possível superar esse sentimento, com a graça de Deus! Eu sou testemunha disso.

Vou mais além: será que nos "vilarejos" de sua história há algum sinal de desistência? Pensar em seus sonhos de criança lhe causa alegria ou tristeza? Seja como for, convido-o a valorizar seus sonhos. Eles são seus e isso os torna preciosos, exclusivos e muito valiosos.

É certo que existem sonhos em nossa vida que, por diversas circunstâncias, não foram nem serão realizados. Aí precisamos encontrar em Deus uma maneira de enfrentar a realidade sem nos deixar contagiar pela decepção. Uma maneira de lidar com situações assim é fazer, por exemplo, a leitura dos acontecimentos valorizando o que existe de bom em nossa história, de forma a permitir que Deus cure o que sobrou da dor.

Recordo-me de um sonho que tinha quando era crainça. Por admirar a relação dos meus pais e sabendo que eles sempre foram pobres, pensava em fazer uma festa bonita na comemoração dos seus cinquenta anos de casados. So que isso não aconteceu. Quando faltavam apenas dois anos para o acontecimento o meu pai faleceu. Lembro-me de que quando voltamos do velório, fomos rever algumas fotos e minha mãe mostrou-me uma que eu havia guardado para fazer o convite das bodas, ela sabia desse meu desejo e partilhou comigo, em lágrimas, a sua dor. Senti naquela hora que não seria possível realizar o sonho que eu havia alimentado havia tanto tempo e a dor da perda do meu pai se misturava com mais essa perda. Pode parecer uma coisa simples, mas para quem a vive não o é.

No meu caso, precisei entregar a situação a Jesus e pedir-Lhe várias vezes que curasse meu coração, pois todas as vezes em que ouvia falar em "bodas de ouro" sentia tristeza e lembrava meu sonho desfeito. Hoje graças a Deus, já superei isso. Deus foi mostrando-me as inúmeras graças de ter uma família como tenho e a presença do meu pai por tanto tempo em meio a nós. E fez-me perceber que muito mais valia isso do que fazer uma festa bonita sem ter o que realmente celebrar. Lembro-me ainda de muitos outros sonhos de criança, alguns que ainda busco realizar, outros que já realizei e sou grata. Por exemplo, eu sonhava, desde pequena, em me casar às 18 horas e entrar na igreja ao som da Ave-Maria com um buquê de flores e um terço na mão, seria uma homenagem a Nossa Senhora. Casei no ano passado e Deus providenciou tudo para que fosse assim e foi lindo!

Quando vejo as fotos e penso naquele dia fico contente por ter realizado mais um sonho, e por aí vai... A vida segue seu rumo e precisamos seguir o nosso também. Certamente na sua vida não é diferente, imagino que você possua sonhos que já tenha conseguido realizar e outros, não. Mas se entre os sonhos que não realizamos existem tantos outros que conseguimos realizar, por que pararmos na dor?

Por outro lado, quando falamos de sonhos possíveis de realizar, é preciso acreditar e lutar por eles com tudo que temos, sem desistir até o último instante. Por isso, hoje, não permita que situações ou pessoas roubem sua vontade de sonhar. Jesus Cristo foi um grande sonhador. Ele sempre falou de sonhos e nunca deixou de encarar Sua realidade humana e divina. Seu exemplo e Sua vitória nos contagiam e nos chamam a segui-Lo confiantes, buscando a cada dia fazermos a nossa parte. Sonhos não viram realidade num toque de mágica, a alegria da vitória passa pela luta de cada dia. Coragem!

Talvez, hoje, seja um ótimo dia para você voltar aos "vilarejos" de sua história, tirar as "placas" que denunciam desistência e voltar a sonhar, tomar posse do que já é seu. Não abra mão dos seus sonhos!

Se você não realizou seus sonhos, entregue-os a Deus, não deixe que a lembrança deles lhe roube a alegria. E os que foram realizados, considere-os como sinais de que é possível ir mais longe quando acreditamos e não paramos nas barreiras. Elas existem para ser superadas.

Estamos juntos! Rezo por você. Seus sonhos podem se tornar realidade se você acreditar. Vale a pena sonhar!

Dijanira Silva
Retirado do Blog da Canção Nova

Padre Ivan – 28 anos de Sacerdócio

Deus pode espalhar a semente que lhe fora confiada, mas não pode ordenar que ela cresça. Ele pode oferecer a Palavra da Verdade a um povo, mas não pode fazer as pessoas receberem a Palavra e produzir fruto espiritual.

Há 28 anos Deus lançou uma semente e a lançou em “terra boa”, por isso vem dando bons frutos!!!

Deus o chamou pelo seu nome, em alto e bom som! Sabia que o senhor seria um pastor que apascentaria suas ovelhas com muito amor, carinho e fidelidade!

Continue sempre firme à frente de nosso Santuário, conduzindo o seu rebanho rumo ao Pai. As tribulações surgem, mas fazem parte da caminhada, nunca desista dos seus sonhos de um mundo mais humano e fraterno, de justiça e paz.

Que o Espírito de Deus continue a lhe iluminar e que Deus e Nossa Senhora de Fátima continuem lhe abençoando nessa caminhada!!!

"O Sacerdote é o amor do Coração de Jesus. Quando virdes o padre, pensai em Nosso Senhor Jesus Cristo." São João Maria Vianney

Paz e Bem!!!

Domingo do semeador

O evangelho inicia o discurso em parábolas, onde Jesus apresenta a natureza do Reino. Parte das sementes não produzia frutos porque caía em terreno impróprio ou não encontrava condições adequadas para o crescimento. Mas muitas sementes caíam em terra boa e produziam fruto: cem, sessenta, trinta, conforme a qualidade do solo. Assim, Jesus mostra a eficácia da semente do Reino, da palavra de Deus, não obstante as dificuldades.

Como o semeador, que espalha generosamente as sementes, Jesus é enviado pelo Pai para oferecer a salvação a toda à humanidade. Os que partilham do caminho de Jesus e assimilam a proposta do Reino transformam-se em terra boa, própria para produzir uma colheita abundante.

A compreensão do Reino, requer adesão total de vida, atuação prática.

Na 1ª leitura, o profeta mostra a palavra de Deus como um evento de salvação, que impele Israel a um novo êxodo, a um caminho renovado de libertação. Como a chuva, que fecunda a terra e faz germinar a semente, a palavra de Deus não volta sem realizar o seu plano de amor.

O salmista contempla a ação benevolente de Deus, manifestada no envio das chuvas, que asseguram a colheita.

Paulo, na 2ª leitura, ressalta que a finalidade da vida nova de ressuscitados é a glorificação com Cristo. Em meio aos sofrimentos, estamos ancorados na mesma esperança da criação, que anseia pela libertação plena. Como filhos e filhas de Deus, iluminados pelo Espírito, somos impelidos a uma renovação espiritual capaz de produzir efeitos sobre os outros seres criados.

Retirado da Revista de Liturgia

É tempo de agradecer

A cada momento, é bom agradecer a Deus pelas maravilhas que realiza em nós e para conosco.

Uma das grandes maravilhas é você, pelo dom da sua vida, da paciência, do amor, do perdão e da misericórdia. Você, meu irmão, minha irmã, deve saber que somos criados a imagem e semelhança de Deus.

Ele nos criou para nos colocar no mundo e ao mesmo tempo, para uma missão na vivência e convivência uns com os outros. Você, eu, realizamos tarefas, mas em cada uma delas nós nos complementamos.

Você que faz alguma coisa, por menor que seja, principalmente para ajudar o próximo, aos olhos de Deus, faz grande coisa. Pois, quando coloca o coração, no que fez ou faz, com e por amor, é a Deus mesmo que você atinge.

Desta forma eu procuro lhe agradecer pelo que você faz, para entrarmos em comunhão, ao mesmo tempo pelo seu ministério que você exerce para o crescimento de todos, aqui, nesta paróquia.

Sem você, sem sua ajuda, as coisas, os acontecimentos não andariam tão bem. Mas unidos, encontramos forças.


Obrigado,
Pe. Dácio
Vigário do Santuário de Fátima

Feliz com Maria

A mãe de Jesus é proclamada mãe de Deus. A base da fé cristã se dá em Jesus, por Ele não ser apenas um homem e sim também Deus. O filho que Maria gerou é pessoa divina. Ela acompanhou seu filho até a ressurreição. Por Ele ter ido ao céu, Maria também o acompanhou em seguida, sendo levada à eternidade na glória do Filho. Celebramos essa realidade da subida de Maria, viva em corpo e alma, para junto de Deus. Nós a proclamamos feliz, porque, de fato, ela cumpriu a missão que lhe foi confiada, apesar de seu sofrimento, vendo a injustiça humana perseguidora de Jesus. Mas, assim como Ele triunfou sobre tudo, sua felicidade foi imensa com essa vitória.

Maria, simples criatura de Deus, foi escolhida como modelo de isenção de pecado e de abertura total à ação do Criador. Ela bem lembra à prima Isabel a grandiosidade de Deus, que olhou para ela, simples serva obediente e humilde. Seu reconhecimento da bondade do Senhor é estímulo para também desenvolvermos nossa docilidade e adesão ao projeto de Deus a nosso respeito. Se todos ouvissem a Deus como Maria, teríamos pessoas mais felizes e convivência humana mais saudável. Jesus reconhece todas as pessoas que realizam o projeto de Deus como sua mãe. “Felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 28).

Já na preparação à vinda do Salvador, o povo hebreu, a caminho da terra prometida, levava a arca da aliança pelo deserto afora. Era o sinal da presença de Deus, o amparo e protetor do povo contra todas as adversidades da caminhada. O povo confiava no seu Senhor para atingir o objetivo de sua luta para fugir da escravidão e conquistar a liberdade. Com Jesus, a libertação se reveste da amplitude existencial. O objetivo da caminhada de seguimento a Ele vai até a eternidade. Mesmo nas adversidades o sacrifício é meritório e redundante em prêmio, tem em vista a cidade permanente. O ser humano quer revestir-se de imortalidade.

A felicidade transitória nada é em comparação com a imorredoura. A meta da realização humana plena só é atingida totalmente com a visão face a face do esplendor de Deus. O filho de Maria veio nos garantir tal finalidade. Maria foi a primeira a assumir essa causa trazida por Jesus. Torna-se verdadeira discípula e assume a missão de apresentar o filho para termos a vida unida à dele. A felicidade de Maria também pode acontecer em todos os que se tornam verdadeiros discípulos do Divino Mestre. Com Ele alcançamos a vitória sobre a morte, conforme diz Paulo. “Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória pelo Senhor Nosso, Jesus Cristo” (1 Cor 15, 57).

Para entendermos a missão de Maria e sua glorificação é preciso colocarmos fé no projeto de Deus. Ele visa o bem humano, com a valorização de sua caminhada terrestre, através da implantação da justiça e da convivência fraterna de todos, mas tendo o objetivo da conquista do Reino eterno. Não fosse isso, não perceberíamos a ação de Deus em Maria, fazendo dela um exemplo de fidelidade a Deus. Ela fez da sua felicidade a realização do projeto de Deus. Nós também somente conquistamos a felicidade autêntica imitando-a na realização desse projeto.

Dom José Alberto Moura
Retirado do Site da Comunidade Shalom

A parábola dos talentos

Hoje iremos meditar o Evangelho do talentos. Infelizmente, no passado, o significado desta parábola foi habitualmente confundido, ou pelo menos muito reduzido. Quando escutamos falar dos talentos, pensamos imediatamente nos dons naturais de inteligência, beleza, força, capacidades artísticas. A metáfora é usada para falar de atores, cantores, comediantes...

O uso não é totalmente equivocado, mas sim secundário. Jesus não pretendia falar da obrigação de desenvolver os dons naturais de cada um, mas de fazer frutificar os dons espirituais recebidos dele. A desenvolver os dotes naturais já nos impulsiona a natureza, a ambição, a sede de lucro. Às vezes, ao contrário, é necessário frear esta tendência de fazer valer os próprios talentos, porque pode converter-se facilmente em afã por fazer carreira e por impor-se sobre os demais.

Os talentos dos quais Jesus fala são a Palavra de Deus, a fé, ou seja, o Reino que Ele anunciou. Neste sentido, a parábola dos talentos se conecta com a do semeador. À sorte diferente da semente que ele lançou – que em alguns casos produz sessenta por cento; em outras, ao contrário, fica entre os espinhos, ou são comidas pelos pássaros do céu –, corresponde aqui o diferente lucro realizado com os talentos.

Os talentos são, para nós, cristãos de hoje, a fé e os sacramentos que recebemos. A palavra nos obriga a fazer um exame de consciência: que uso estamos fazendo destes talentos? Nós nos parecemos com o servo que os faz frutificar ou com o que os enterra? Para muitos, o próprio batismo é verdadeiramente um talento enterrado. Eu o comparo a um presente que se recebeu de Natal e que foi esquecido num lugar, sem nunca tê-lo aberto ou jogado fora.

Os frutos dos talentos naturais acabam conosco ou, quando muito, passam aos herdeiros; os frutos dos talentos espirituais nos seguem à vida eterna e um dia nos valerão a aprovação do Juiz divino: “Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, e por isso eu te darei autoridade sobre o muito: toma parte no gozo de teu senhor”.

Nosso dever humano e cristão não é só desenvolver nossos talentos naturais e espirituais, mas também de ajudar os demais a desenvolverem os seus. No mundo moderno existe uma profissão que se chama, em inglês, talent-scout, descobridor de talentos. São pessoas que sabem encontrar talentos ocultos – de pintor, cantor, ator, jogador de futebol – e os ajudam a cultivar seu talento e a encontrar um patrocinador. Não o fazem de graça, naturalmente, nem por hobby, mas para ter uma porcentagem em seus lucros, uma vez que se afirmaram.

O Evangelho nos convida a ser talent-scout, “descobridores de talentos”, mas não por amor ao lucro, e sim para ajudar quem não tem a possibilidade de afirmar-se sozinho. A humanidade deve alguns de seus melhores gênios ou artistas ao altruísmo de uma pessoa amiga que acreditou neles e os animou, quando ninguém acreditava neles. Um caso exemplar que me vem à mente é o de Theo Van Gogh, que sustentou toda a vida, econômica e moralmente, do seu irmão Vincent, quando ninguém acreditava nele e não conseguia vender nenhum de seus quadros. Eles trocaram mais de seiscentas cartas, que são um documento de altíssima humanidade e espiritualidade. Sem ele não teríamos hoje esses quadros que todos amamos e admiramos.

A primeira leitura do domingo nos convida a deter-nos em um talento em particular, que é ao mesmo tempo natural e espiritual: o talento da feminilidade, o talento de ser mulher. Contém, de fato, o conhecido elogio da mulher que começa com as palavras: “Uma mulher completa, quem a encontrará?”. Este elogio, tão belo, tem um defeito, que não depende obviamente da Bíblia, mas da época na qual foi escrito e da cultura que reflete. Se prestarmos atenção, descobriremos que este talento está inteiramente em função do homem. Sua conclusão é: bendito o homem que tem uma mulher assim. Ela lhe tece maravilhosas vestes, honra a sua casa, permite-lhe caminhar com a cabeça levantada entre seus amigos. Não creio que as mulheres de hoje gostem deste elogio.

Deixando de lado este limite, quero sublinhar a atualidade deste elogio da mulher. Desde todas os lugares surge a exigência de dar mais espaço à mulher, de valorizar o gênio feminino. Nós não cremos que “o eterno feminino nos salvará”. A experiência cotidiana mostra que a mulher pode elevar-nos ao alto, mas também pode precipitar-nos para baixo. Também ela precisa ser salva por Cristo. Mas é certo que, uma vez redimida por Ele e “libertada”, no campo humano, das antigas sujeições, ela pode contribuir para salvar nossa sociedade de alguns males crônicos que a ameaçam: violência, vontade de poder, aridez espiritual, desprezo pela vida...

Depois de tantas épocas que adotaram o nome do homem – a era do homo erectus, homo faber, até o homo sapiens, de hoje –, deve-se augurar que se abra finalmente, para a humanidade inteira, uma era da mulher: uma era do coração, da ternura, da compaixão. Foi o culto a Nossa Senhora que inspirou, nos séculos passados, o respeito pela mulher e sua idealização em boa parte da literatura e da arte. Também a mulher de hoje pode ser olhada como modelo, amiga e aliada na hora de defender sua própria dignidade e o talento de ser mulher.

Frei Raniero Cantalamessa
Retirado do Site da Comunidade Shalom

O segredo da força espiritual

O amor de Deus, muitas vezes, faz com que Ele sofra, como por exemplo, quando Ele procura lhe falar e você não O escuta e escapa d’Ele... quando entrega o seu amor, que Lhe é tão precioso, a coisas sem valor; isso é muito duro para o Senhor. Que deve Ele, então, fazer nessa situação?

Deve abandonar você? Eliminá-lo? O Seu amor O detém. Ele, que tudo pode, é incapaz de esquecer o quanto ama você e Lhe dá uma dor imensa só em pensar que o pode perder, que o pecado o pode destruir e tirá-lo d’Ele. O Seu coração se emociona, e Ele estremece de compaixão.

Você é o filho a quem Deus ama, o Seu filhinho querido! Deus se lembra disso e o Seu ser se comove, se enche de ternura.

No exato momento em que dizemos sim ao Senhor, Sua proteção repousa sobre nós. Porque Ele é o nosso rochedo, guardemo-nos n’Ele! Não há inimigo mais poderoso que a morte, e, no entanto, o amor apaixonado do Senhor é mais forte do que ela. Afinal, "se Deus é por nós, quem será contra nós?".

Por que duvidar? Você não precisa buscar fora de si a prova de que Ele o ama. Você mesmo é essa prova, é o Seu bem-querer que o faz existir. Por isso não olhe para fora. Quem olha para fora se distrai e se ilude. Só quem olha para dentro de si desperta para a verdade. Olhe para o seu interior, para dentro de você!

Deus o perdoa por ter se afastado e se prejudicado a si mesmo e está disposto a recomeçar com você desde o início. Não deixe o passado segurá-lo para que não perca as maravilhas que o Senhor reservou para sua vida a partir de agora. Deus o quer vivo! A Sua alegria é vê-lo cheio de vida. Você é muito querido por Deus e sua vida é mais preciosa que todos os tesouros deste mundo.

Tudo é possível quando se abre o coração, quando se volta ao Senhor, porque Ele é bom e compassivo, paciente e perdoador, pronto para afastar o mal que o aflige.

"Qual é o Deus que, como o Senhor, apaga a iniqüidade e perdoa o pecado do resto de seu povo, que não se ira para sempre porque prefere a misericórdia?" (Mq 7,18).

"Eu quero o amor mais que o sacrifício, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos" (Os 6,6). "Porque amo os meus filhos ainda que se voltem para o pecado" (cf. Os 3,1).

"No meu amor e na minha ternura, eu mesmo te livrei do perigo. Durante o passado sustentei-te e amparei-te constantemente" (Is 63,9).

Márcio Mendes
Retirado do Blog da Canção Nova

Uma amizade verdadeira constrói um ser humano

Nas primeiras páginas das Sagradas Escrituras, Deus olha a criação e, diante de tanta beleza, só uma coisa Ele vê e diz que não é boa: a solidão do homem. Quando o Senhor diz: “Não é bom que o homem esteja só...” (cf. Gn 2,18), para além da necessidade de uma companheira do sexo oposto, Ele vê que, para o homem, era necessária a convivência com outras pessoas. O homem é um ser que se relaciona e é criado para estar com os outros. É no envolvimento dos relacionamentos humanos que vamos nos conhecendo e nos dando a conhecer.

Nesses relacionamentos sempre somos presenteados com os verdadeiros amigos. Aqueles que, um dia, entraram em nossas vidas fizeram a diferença e nunca mais saíram, pois ajudaram a construir parte da nossa história de vida. Uma amizade verdadeira é capaz de construir um ser humano melhor, que não tem medo de dizer a verdade com amor, que não foge na hora da dor e que, acima de tudo, sabe partilhar as alegrias e conquistas da caminhada. Amizades que suportaram o passar dos anos e os grandes desafios de cada tempo. Eu mesmo posso testemunhar o sustento que a presença dos amigos representa na minha vida. Amigos que desde os inícios da Comunidade Canção Nova abraçaram os mesmos ideais e se comprometeram dia a dia com essa obra.

Muitos fizeram essa história e não me atrevo a dizer o nome de nenhum por receio de me esquecer de algum deles, o que seria uma grande injustiça, pois eu mesmo preciso reconhecer que sou hoje um homem melhor por causa desses meus amigos. Pessoas que se aproximaram, ficaram e nunca mais saíram da minha história pessoal e da história da Canção Nova. A novidade dessa canção se faz pela fidelidade de tantos amigos que, espalhados pelo mundo, aqui tão perto de nós ou um pouco mais distantes, são Canção Nova por meio de uma amizade bonita, que não nasceu de uma vontade meramente humana, mas de um querer primeiro de Deus.

“Chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15,15). Chamar de amigo demonstra a confiança de partilhar vida e sonhos, dores e lutas, desejos e conquistas, enfim essa amizade é tão profunda que nos faz viver assim há tanto tempo e sermos felizes. Essa amizade não cria grupos fechados e exclusivos, mas é aberta a todos aqueles que se aproximarem. Você faz parte dessa amizade tão linda e tão forte que Deus mesmo estabeleceu entre nós. A cada dia que passa nos conhecemos mais, vamos nos assumindo como verdadeiros amigos em direção do critério mais sublime de amizade dito por Cristo: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

Eu escolhi um dia responder ao amor de Deus que me chamava, me comprometi a "ser tudo para todos", tenho me esforçado para cumprir isso, sei que posso melhorar muito e quero fazer isso a cada dia, pois sei que vale a pena dar a minha vida por você que é meu amigo. Agradeço a sua amizade verdadeira, que se manifesta sempre de forma concreta, e me comprometo a ser fiel a essa nossa amizade.

É bom ter você como amigo

Monsenhor Jonas Abib
Retirado do Blog da Canção Nova

Domingo de Pedro e Paulo

As dimensões do testemunho – não esqueçamos que a palavra “mártir” significa originalmente “testemunha” – e da aliança marcam fortemente a celebração e as leituras de hoje.

A primeira leitura mostra uma Igreja em pé de testemunho, contado pelo autor dos Atos dos Apóstolos com elementos presentes na paixão de Cristo, talvez para lembrar que, de fato, o discípulo não é maior que o seu senhor. Ao mesmo tempo, mostra – e desta vez é o livro do êxodo que serve de inspiração – como Deus envia seu mensageiro para libertar Pedro.

A segunda leitura traz o que poderíamos chamar de testamento de Paulo, prestes a dar o seu testemunho. Entende seu martírio como a suprema oferta de si mesmo e como culminância do seu ministério, ao mesmo tempo que proclama como o Senhor o libertou e socorreu.

O evangelho revela o segredo destes dois testemunhos, tanto o de Pedro como o de Paulo: a fé em Jesus, reconhecido como filho de Deus. Tal como o martírio, esta fé é um dom do próprio Deus - “não foi um ser humano que te revelou isto, mas o meu Pai que está no céu” – ao mesmo tempo que se torna a suprema forma de felicidade: “feliz és tu...”. Assim compreendida, a fé manifesta a dimensão de aliança que une indissoluvelmente o discípulo ao Senhor e o Senhor ao discípulo.

Mais do que obras, a contribuição destes dois apóstolos está na totalidade com que viveram o discipulado de Jesus e na aliança que estabeleceram com ele. É por isto que são chamados de colunas da Igreja.

Nesta celebração, como festa da aliança, estreitemos nossa intimidade e compromisso com o Senhor Jesus, a testemunha sempre fiel. Na memória da fidelidade dele, e renovados pelo testemunho dos santos apóstolos Pedro e Paulo, encontremos energia e força para continuar a obra que começaram!

Retirado da Revista de Liturgia