Vençamos os fantasmas que estão apavorando nossa vida

Depois daquela multiplicação maravilhosa dos pães, que saciou toda aquela multidão, Jesus põe-se mar adentro na barca com os Seus discípulos para ir do outro lado da margem. A noite avançava, Jesus ficara em terra rezando e via que Seus discípulos remavam, mas estavam cansados por enfrentar os ventos contrários.

Vendo os Seus, Jesus foi andando sobre as águas para ir ao encontro deles, para vê-los mais adiante, mas os discípulos, movidos pelo cansaço, começaram a ter medo, confundiram Jesus com fantasmas e começaram a gritar de pavor. Jesus disse: “Coragem, meus filhos! Não temais, sou eu que estou indo ao vosso encontro”.

O cansaço, o desgaste físico, emocional, psicológico geram tantos fantasmas dentro de nós, dentro do nosso coração, que até passamos a confundir as coisas, até as pessoas de Deus que estão ao nosso lado, até o nosso próximo se torna fantasma para nós!

Como nós precisamos da luz de Deus! Como precisamos, a cada dia, vislumbrar Jesus à nossa frente, para nos ajudar a vencer os fantasmas e as fantasias que crescem dentro de nós! Sabemos que as fantasias cultivadas, que crescem dentro de nós viram verdadeiros fantasmas, nos assustam, nos apavoram, nos fazem criar coisas que não existem; aí, começamos a implicar com isso e com aquilo, começamos a viver certas “neuroses” dentro de nós e com os outros, que nem damos conta de onde está vindo. Por isso, Jesus, hoje, está vindo ao encontro de nós para curar, melhor ainda, para mandar para longe de nós todos os fantasmas que estão nos apavorando.

É óbvio que fantasma é aquilo que não existe, nós não somos mais crianças para termos essas ilusões, mas às vezes o nosso coração de adulto fantasia demais as coisas e, geralmente, fantasiam o que é mais negativo. Nós transformamos uma coisa pequena em algo grande, transformamos um mal-entendido num desentendimento e numa guerra; fazemos confusões por pouca coisa. Porque alguém não sorriu para nós, já começamos a fantasiar tantas e tantas coisas; pegamos uma palavra e fazemos dela um verdadeiro incêndio ao nosso lado.

Que Deus nos ajude a nos purificarmos dessas fantasias terríveis, pequenas ou grandes, que deixamos crescer dentro de nós e nos ajude a vencer os fantasmas que, muitas vezes, estão apavorando nossa vida.

Lembro-me de que alguém passou um bom tempo sem falar comigo. Fechava a cara, não queria me ver e eu não entendia nada. Até que um dia ela tomou coragem e veio me dizer: “Olha padre, eu estou chateado com você, porque você não gosta de mim!”. Disse-me tantas coisas! E eu lhe disse: “Eu nem sabia que isso acontecia, eu nem sabia que um gesto que eu havia feito tinha causado tanto transtorno dentro de você! O problema não foi o meu gesto, o problema foi você transformá-lo em uma fantasia que cresceu tanto e virou um fantasma!”.

Está na hora de rompermos com todos os fantasmas que criamos ao redor de nós!

Deus abençoe você!

Padre Roger Araújo
Sacerdote da Comunidade Canção Nova

Que tal começar o novo ano com uma nova disposição?

Depois da prisão de João Batista, Jesus foi viver na Galileia, deixou Nazaré e foi para Cafarnaum, que passou a ser Sua cidade, o lugar da Sua morada. O Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, mas escolheu Cafarnaum, às margens do mar da Galileia, porque ali a vida acontecia, as pessoas caminhavam para lá e para cá e viviam da base dessa economia e Jesus queria estar no meio do Seu povo. Ele veio para ser a luz daqueles que caminham nas trevas.

A vida e o ministério do Senhor se baseiam, em primeiro lugar, em anunciar o Reino de Deus, e para entrar nesse Reino é preciso uma lógica, que se chama: conversão. É preciso agora uma nova mentalidade, é preciso ter a coragem e a ousadia de querer aprender de novo ou, na verdade, de querer aprender qual é o caminho e o sentido para a vida.

Por isso Jesus percorre as margens do mar da Galileia, percorre aquelas regiões de Cafarnaum e nelas anuncia o Reino de Deus. O Reino de Deus foi anunciado a nós, e é nosso dever, nossa tarefa e nossa obrigação anunciá-lo para as pessoas! Comecemos pela nossa conversão pessoal!

Todos os dias é dia de nos convertermos, todos os dias é dia de mudança de atitude e de mentalidade. É dia de deixar de lado aquelas coisas, gestos e atitudes que não contribuem para fazer o Reino de Deus acontecer. Existem gestos que estão dentro de nós, começam com o nosso mau humor, com as nossas mágoas e com as coisas que estão azedas dentro do nosso coração.

Que tal começar o novo ano com uma nova disposição? Com a coragem de viver a cada dia como se fosse o único dia de nossa vida? E darmos o melhor de nós, o melhor do nosso empenho, da nossa determinação para com o nosso próprio interior.

Quero me converter no dia que se chama hoje! Sabe por quê? Porque muitos de nós temos adiado a nossa conversão, muitos de nós temos vivido uma mentalidade errada: “Vamos nos converter no final da vida”. E se acaso o fim da nossa vida for hoje? E o que menos importa é isso, o que mais importa é viver, a cada dia, a lógica, a dinâmica do Reino de Deus!

É ter a cada dia a disposição de se converter de algo ou de alguma coisa. Se você tinha disposição para falar mal de alguém, que tal hoje deixar de fazer isso? Se você tinha a disposição para não amar e de não acolher o próximo, que tal no dia de hoje poder amar mais, acolher mais e poder ser mais fraterno com o próximo, com o nosso irmão?

Vivendo assim, tendo essa disposição dentro de nós, de nos convertermos a cada dia, nós podemos anunciar o Reino de Deus aos outros. Podemos mostrar aos outros que o caminho do pecado não gera vida. Contudo, o Reino de Deus não se anuncia só com palavras, o que falamos aos outros é preciso que as pessoas vejam a nossa disposição para mudar, para nos convertermos, para mudar e fazer um esforço para mudar as nossas atitudes. Quando assim o fazemos o Reino de Deus está próximo de nós, está em nós e entre nós!

Deus abençoe você!

Padre Roger Araújo
Sacerdote da Comunidade Canção Nova

O Espírito de Deus nos fará recomeçar

É este Espírito que faz de nós testemunhas autênticas do Senhor. Eu partilhei, na virada do ano, a Palavra que o Senhor me direcionou, que está em Mateus 10,32: “Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus” (Mateus 10,32). Imediatamente, quando recebi esta Palavra de Deus, logo me reportei à outra passagem que diz: “Recebereis o Espírito Santo e sereis as minhas testemunhas” (Atos 1,8). Nós só conseguiremos testemunhar nossa fé em Deus para as pessoas com a ajuda do Espírito Santo de Deus. É Ele quem vai nos ajudar a combater os nossos inimigos. E quem são estes inimigos? A nossa carne, o mundo e satanás.

Não precisamos ter intimidade com o Espírito Santo. É importante O conhecermos. O que é a primeira coisa que você faz quando conhece uma pessoa? Perguntar o nome dela. Depois você faz outras perguntas a ela. Ou seja, nós nos cumprimentamos e perguntamos como ela está. Muito mais nós precisamos conhecer a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, a quem os profetas chamavam de “Ruah”. Este é o nome próprio do Espírito. Em hebraico “Ruah” significa espaço atmosférico entre o céu e a Terra; numa linguagem mais moderna: o Espírito Santo é a conexão entre o céu e a Terra.

Quando o padre celebra a Eucaristia quem faz a conexão com o céu é o Espírito Santo no momento em que ocorre a transubstanciação. “Ruah” significa o espaço onde o vento sopra. É este espaço vital no qual o ser humano se move e tem liberdade, onde ele encontra respiração. O nosso organismo não sobrevive sem respiração, da mesma forma, um cristão não sobrevive no mundo atual, nesta cultura hedonista e exigente, sem o Espírito Santo.

Nós precisamos entrar na atmosfera espiritual a fim de adquirirmos fôlego para continuar nossa meta rumo ao céu. O Espírito Santo é o “fôlego do alto” que nos faz continuar. Eu louvo a Deus pela obra que Deus faz na vida dos fiéis por intermédio de nossos pregadores, a começar pelo nosso pai fundador, monsenhor Jonas Abib. Não somos melhores que ninguém, mas lutamos para pregar a Palavra de Deus com ousadia e sem medo de ninguém.

O Espírito Santo é este espaço vital onde se dá o encontro com Deus e com Cristo. “Ruah” significa duas coisas estritamente ligadas: ar e respiração. Deseje estar oxigenado pela graça do Espírito Santo de Deus. Você já correu contra o vento? Quem já remou e nadou contra o vento? É fácil? Não, é dificíl. O Espírito Santo é este vento impetuoso, esta força que nos coloca para frente. Quando nós colocamos resistência e nadamos contra o Espírito Santo, nós nos cansamos espiritualmente e ficamos abatidos.

“A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gen 1,2). “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gen 2,7). O sopro é a base vital. Isso é uma realidade que nos mostra a força da vida que o Espírito gera em nós.

O vento quebra os rochedos, por isso no livro dos Reis está escrito que ele [vento] é indomável. Gabriel Medina, para vencer o campeonato mundial de surfe, precisou da força do vento. Da mesma forma, não tem como sermos vencedores sem o vento do Espírito Santo para nos ajudar a vencer o pecado. É o Espírito Santo quem vai nos ajudar a colocar nossos propósitos em prática em 2015.

A respiração é algo muito intímo, basta olhar quando Moisés sobe no Monte Sinai. O Espírito é esta “respiração de intimidade” entre nós e Deus. Muitas vezes, no meio da batalha, sentimos a sensação de desmaio, e a oração nos garante a “respiração”. Quando a pessoa está desmaiando nós dizemos: “Respire mais fundo”. E logo esse mal passa. Na nossa vida também é assim, vai haver momentos em que precisaremos parar e respirar mais fundo para entrar em intimidade com Deus em oração. O Espírito Santo é esta força que nos faz vencer e seguir adiante.

Talvez, ao acabar o acampamento, você diga: “Eu sou fraço”. E eu lhe digo: leia Romanos 8,6: “Ora, a aspiração da carne é a morte, enquanto a aspiração do espírito é a vida e a paz”. Que você seja como o bambu, que se dobra, verga-se, mas não quebra. Para isso você precisa estar enraizado na rocha, que é Cristo, e se deixar ser levado por Ele para onde Ele quiser. Se não formos para onde o vento do Senhor nos levar, vamos tombar e não vamos ser testemunhas d’Ele. Se resistirmos a esse sopro, correremos um grande risco de cair.

Ao passo que, se deixarmos o Espírito Santo nos dominar, nós vamos ver as pessoas, a política e o país mudarem. Como dizia São João Paulo II: “O Brasil precisa de santos”. Para conseguirmos essa graça, nós precisamos ir para as águas puras e ter a coragem de enfrentar os predadores que querem nos pegar no meio do caminho e as pedras que encontrarmos nele. Precisamos honrar o Senhor nas nossas vidas, sejamos nós casados, namorados, celibatários ou sacerdotes.

Que coisa espetacular o Espírito Santo nos guiar! Diante das provações não tenha medo, porque, assim como o Espírito Santo fez Sansão ficar forte, Ele o fortalecerá também. A força da Igreja não está nos pensamentos dos sábios, nem no direito canônico, nos doutores ou na diplomacia, mas sim na força do Espírito Santo de Deus. Quem move, converte e cura a Igreja é o Espírito. O que nos move é o Espírito. Deus não nos deu um espírito de covardia. Tertuliano, um mártir do século I, diz que: “O Espírito Santo é o treinador dos mártires”. É o Espírito Santo quem trabalha, encoraja e não nos deixa perecer diante das dificuldades.

“Então ele explicou: Este é o oráculo do Senhor a respeito de Zorobabel: não pelo poder, nem pela violência, mas sim pelo meu Espírito (é que ele cumprirá a sua missão) – oráculo do Senhor” (Zacarias 4,6). O Espírito Santo é o doce hóspede da alma. Nós nunca estaremos sozinhos. É Ele quem vem curar a nossa solidão. O hóspede é acolhido com todo o cuidado, nós limpamos a casa e lhe oferecemos o melhor. O Espírito Santo é o hóspede da nossa alma, por isso precisamos estar com o coração sempre limpo e aberto. Ele cria nossa intimidade com Deus. “Íntimo” vem de “intimus”, que quer dizer “dentro de nós”. O Papa Francisco disse: “O que eu espero de vocês é que levem o Espírito Santo para todas as pessoas”.

Padre Roger Luís
Sacerdote Comunidade Canção Nova

Epifania do Senhor

A leitura de Isaías se refere à situação de Jerusalém. Ela é desanimadora. É tempo de pós-exílio, onde tudo está por ser feito Se o exílio era amargo, a saída dele e a reconstrução do país foram marcadas por grandes dificuldades: Jerusalém está prostrada por causa de sua população diminuta, pela falta de recurso e pela dominação estrangeira (império persa) que não permitia a organização política dos que retornaram, além de impor pesado tributo.

Teria Deus abandonado seu povo e a cidade santa? O papel do profeta (Terceiro Isaías) é suscitar ânimo e esperança. Deus continua sendo o esposo da cidade. Por causa do amor fiel que tem para com Jerusalém, esta será transformada em ponto de convergência da caminhada das nações. Neste contexto, precisamos entender a palavra do profeta.

O texto de Isaías (60,4) é uma poesia de consolo à comunidade que retorna do cativeiro: “Lança um olhar em volta e observa: todos estes reunidos para virem a ti, teus filhos vêm de longe, tuas filhas carregadas ao colo”. Jerusalém acolhe os seus que foram deportados, e, resplandecente, vibra pela justiça de Deus.

Amanhece o dia: trabalhos de reconstrução, acumulação de tesouros. Triunfam a paz e a justiça. O dia passa, mas a noite não chega: começou o dia sem fim de luz, vida, justiça e fecundidade, porque a glória do Senhor se levantou sobre a cidade. Jerusalém deve despertar da noite do exílio e ver com alegria a chegada das nações cantando louvores a Deus.

A carta de Paulo aos Efésios fala do desígnio eterno de Deus de se revelar à humanidade; esse mistério completou-se em Jesus, o Messias, a chamar a si toda a humanidade, judeus e não judeus. Deus revelou-se no momento presente pelo Espírito: os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo e associado à mesma promessa em Jesus Cristo.

No Evangelho, uma luz paira sobre o lugar do nascimento de Jesus. Lendo-o a partir da primeira leitura com seu salmo, nos é possível perceber como se cumpre em Jesus o que se anuncia acerca de Jerusalém e do Rei-Messias.

Mateus fala da visita dos magos do Oriente a uma casa onde se encontram Jesus e sua Mãe. Herodes Magno é rei da Judeia. É visto como ilegítimo por parte da população por ser estrangeiro. Para ele Jesus é um rival perigoso que deve ser eliminado.

A estrela esperada, que sairia da linhagem do pai Jacó (Nm 24,17), é Jesus de Nazaré, descendente de Davi, outra estrela da estirpe de Jacó. Essa estrela é a verdadeira luz para todos os povos, é o “sol da justiça”, anunciado pelo profeta Malaquias (Ml 3,20). Davi é da tribo de Judá e Belém é sua aldeia de origem. Por isso, os autores deste relato fazem memória da esperança do profeta Miquéias (Mq 5,1-3), que não acreditava mais nas autoridades de Jerusalém, a capital, mas em um governante que viria desde a periferia, como Davi, quando era um pobre pastor de ovelhas antes de se tornar rei em Hebron e, depois, também em Jerusalém.

Outro aspecto dessa memória da esperança do povo é o fato de lembrar vários textos que anunciam a vinda do rei justo para todos os povos, enquanto do Oriente e do Ocidente eles viriam trazendo-lhe presentes (Sl 72,10-15; Is 49,23; 60,5-6). Os presentes anunciam que Jesus é rei (ouro) divino (incenso), que veio trazer libertação para muitos. Por isso, é uma ameaça para outros, que o matam (a mirra era usada nos sepultamentos – Jo 19,39-40)

Contrastando com Herodes estão os magos do Oriente. Seriam sacerdotes persas, mágicos, astrônomos ou astrólogos babilônios? Importante é que eram conhecedores das tradições judaicas. Chegam a Jerusalém, perguntando pelo rei dos judeus recém-nascido, pois viram sua estrela e vieram homenageá-lo. Herodes tremeu e com ele toda a Jerusalém ligada ao poder. Ele conhecia a esperança messiânica do povo e temia como ameaça ao seu poder político.

Os sumos sacerdotes e doutores foram indagados sobre onde devia nascer o Messias. Eles citam o profeta Miquéias (5,1): “Mas tu, Belém de Éfrata, pequenina entre as aldeias de Judá, de ti é que sairá para mim aquele que há de ser o governante de Israel. Sua origem é antiga, de épocas remotas”. A profecia de Miquéias opõe a humilde aldeia de Belém à capital, Jerusalém.

O rei se informa sobre o tempo em que havia aparecido o astro, recomendando que enviassem informações para que ele pudesse ir homenagear a criança. Os magos partiram e a estrela os conduzia, motivo de imensa alegria. Entraram em casa e viram o menino com a mãe Maria. Não é uma gruta, ou sala de peregrinos, ou um dormitório. É uma casa. Não menciona José.

Na tradição bíblica, a presença do rei ou do herdeiro tem papel importante (cf. Sl 45,10). Prostraram-se, homenageando a criança e lhe ofereceram ouro, incenso e mirra, reconhecendo sua dignidade como rei, Filho de Deus e ser humano. Avisados para no retornarem a Jerusalém, voltaram para o Oriente por outro caminho, impedindo os planos de Herodes.

Algumas conclusões se impõem: Jesus é o rei que vem fazer justiça. Ele é o mestre da justiça. Essa missão se concentra na salvação dos pagãos, aqui representados pelos magos. O verdadeiro Rei dos Judeus não é violento nem assassino. É um recém-nascido que tem suas raízes no poder popular alternativo que se forma a partir do descontentamento e das necessidades básicas do povo, ou seja, lembrando que Jesus é Rei à semelhança do pastor Davi. No reinado de Jesus, a salvação não vem de Jerusalém, mas de Belém.

No século VII, eles teriam recebido “nomes” populares: Baltazar, Melchior e Gaspar. E, no século XV, lhes teriam sido atribuídas as “cores”: Melquior representaria as etnias brancas, Gaspar as amarelas e Baltazar as negras, a fim de simbolizar o conjunto da humanidade que acolhe e reconhece o Messias como Deus conosco e libertador de todas as formas.

Diocese de Limeira

Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz


MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO XLVIII DIA MUNDIAL DA PAZ

1º de janeiro de 2015

JÁ NÃO ESCRAVOS, MAS IRMÃOS

1. No início de um novo ano, que acolhemos como uma graça e um dom de Deus para a humanidade, desejo dirigir, a cada homem e mulher, bem como a todos os povos e nações do mundo, aos chefes de Estado e de Governo e aos responsáveis das várias religiões, os meus ardentes votos de paz, que acompanho com a minha oração a fim de que cessem as guerras, os conflitos e os inúmeros sofrimentos provocados quer pela mão do homem quer por velhas e novas epidemias e pelos efeitos devastadores das calamidades naturais. Rezo de modo particular para que, respondendo à nossa vocação comum de colaborar com Deus e com todas as pessoas de boa vontade para a promoção da concórdia e da paz no mundo, saibamos resistir à tentação de nos comportarmos de forma não digna da nossa humanidade.

Já, na minha mensagem para o 1º de Janeiro passado, fazia notar que «o anseio de uma vida plena (…) contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar».[1] Sendo o homem um ser relacional, destinado a realizar-se no contexto de relações interpessoais inspiradas pela justiça e a caridade, é fundamental para o seu desenvolvimento que sejam reconhecidas e respeitadas a sua dignidade, liberdade e autonomia. Infelizmente, o flagelo generalizado da exploração do homem pelo homem fere gravemente a vida de comunhão e a vocação a tecer relações interpessoais marcadas pelo respeito, a justiça e a caridade. Tal fenômeno abominável, que leva a espezinhar os direitos fundamentais do outro e a aniquilar a sua liberdade e dignidade, assume múltiplas formas sobre as quais desejo deter-me, brevemente, para que, à luz da Palavra de Deus, possamos considerar todos os homens, «já não escravos, mas irmãos».

À escuta do projeto de Deus para a humanidade

2. O tema, que escolhi para esta mensagem, inspira-se na Carta de São Paulo a Filemon; nela, o Apóstolo pede ao seu colaborador para acolher Onésimo, que antes era escravo do próprio Filemon mas agora tornou-se cristão, merecendo por isso mesmo, segundo Paulo, ser considerado um irmão. Escreve o Apóstolo dos gentios: «Ele foi afastado por breve tempo, a fim de que o recebas para sempre, não já como escravo, mas muito mais do que um escravo, como irmão querido» (Flm 15-16). Tornando-se cristão, Onésimo passou a ser irmão de Filemon. Deste modo, a conversão a Cristo, o início de uma vida de discipulado em Cristo constitui um novo nascimento (cf. 2 Cor 5, 17; 1 Ped 1, 3), que regenera a fraternidade como vínculo fundante da vida familiar e alicerce da vida social.

Lemos, no livro do Gênesis (cf. 1, 27-28), que Deus criou o ser humano como homem e mulher e abençoou-os para que crescessem e se multiplicassem: a Adão e Eva, fê-los pais, que, no cumprimento da bênção de Deus para ser fecundos e multiplicar-se, geraram a primeira fraternidade: a de Caim e Abel. Saídos do mesmo ventre, Caim e Abel são irmãos e, por isso, têm a mesma origem, natureza e dignidade de seus pais, criados à imagem e semelhança de Deus.

Mas, apesar de os irmãos estarem ligados por nascimento e possuírem a mesma natureza e a mesma dignidade, a fraternidade exprime também a multiplicidade e a diferença que existe entre eles. Por conseguinte, como irmãos e irmãs, todas as pessoas estão, por natureza, relacionadas umas com as outras, cada qual com a própria especificidade e todas partilhando a mesma origem, natureza e dignidade. Em virtude disso, a fraternidade constitui a rede de relações fundamentais para a construção da família humana criada por Deus.

Infelizmente, entre a primeira criação narrada no livro do Gênesis e o novo nascimento em Cristo – que torna, os crentes, irmãos e irmãs do «primogênito de muitos irmãos» (Rom 8, 29) –, existe a realidade negativa do pecado, que interrompe tantas vezes a nossa fraternidade de criaturas e deforma continuamente a beleza e nobreza de sermos irmãos e irmãs da mesma família humana. Caim não só não suporta o seu irmão Abel, mas mata-o por inveja, cometendo o primeiro fratricídio. «O assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser irmãos. A sua história (cf. Gen 4, 1-16) põe em evidência o difícil dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando uns dos outros».[2]

Também na história da família de Noé e seus filhos (cf. Gen 9, 18-27), é a falta de piedade de Caim para com seu pai, Noé, que impele este a amaldiçoar o filho irreverente e a abençoar os outros que o tinham honrado, dando assim lugar a uma desigualdade entre irmãos nascidos do mesmo ventre.

Na narração das origens da família humana, o pecado de afastamento de Deus, da figura do pai e do irmão torna-se uma expressão da recusa da comunhão e traduz-se na cultura da servidão (cf. Gen 9, 25-27), com as consequências daí resultantes que se prolongam de geração em geração: rejeição do outro, maus-tratos às pessoas, violação da dignidade e dos direitos fundamentais, institucionalização de desigualdades. Daqui se vê a necessidade de uma conversão contínua à Aliança levada à perfeição pela oblação de Cristo na cruz, confiantes de que, «onde abundou o pecado, superabundou a graça (…) por Jesus Cristo» (Rom 5, 20.21). Ele, o Filho amado (cf. Mt 3, 17), veio para revelar o amor do Pai pela humanidade. Todo aquele que escuta o Evangelho e acolhe o seu apelo à conversão, torna-se, para Jesus, «irmão, irmã e mãe» (Mt 12, 50) e, consequentemente, filho adotivo de seu Pai (cf. Ef 1, 5).

No entanto, os seres humanos não se tornam cristãos, filhos do Pai e irmãos em Cristo por imposição divina, isto é, sem o exercício da liberdade pessoal, sem se converterem livremente a Cristo. Ser filho de Deus requer que primeiro se abrace o imperativo da conversão: «Convertei-vos – dizia Pedro no dia de Pentecostes – e peça cada um o batismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo» (Act 2, 38). Todos aqueles que responderam com a fé e a vida àquela pregação de Pedro, entraram na fraternidade da primeira comunidade cristã (cf. 1 Ped 2, 17; Act 1, 15.16; 6, 3; 15, 23): judeus e gregos, escravos e homens livres (cf. 1 Cor 12, 13; Gal 3, 28), cuja diversidade de origem e estado social não diminui a dignidade de cada um, nem exclui ninguém do povo de Deus. Por isso, a comunidade cristã é o lugar da comunhão vivida no amor entre os irmãos (cf. Rom 12, 10; 1 Tes 4, 9; Heb 13, 1; 1 Ped 1, 22; 2 Ped 1, 7).

Tudo isto prova como a Boa Nova de Jesus Cristo – por meio de Quem Deus «renova todas as coisas» (Ap 21, 5)[3] – é capaz de redimir também as relações entre os homens, incluindo a relação entre um escravo e o seu senhor, pondo em evidência aquilo que ambos têm em comum: a filiação adotiva e o vínculo de fraternidade em Cristo. O próprio Jesus disse aos seus discípulos: «Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai» (Jo 15, 15).

As múltiplas faces da escravatura, ontem e hoje

3. Desde tempos imemoriais, as diferentes sociedades humanas conhecem o fenômeno da sujeição do homem pelo homem. Houve períodos na história da humanidade em que a instituição da escravatura era geralmente admitida e regulamentada pelo direito. Este estabelecia quem nascia livre e quem, pelo contrário, nascia escravo, bem como as condições em que a pessoa, nascida livre, podia perder a sua liberdade ou recuperá-la. Por outras palavras, o próprio direito admitia que algumas pessoas podiam ou deviam ser consideradas propriedade de outra pessoa, a qual podia dispor livremente delas; o escravo podia ser vendido e comprado, cedido e adquirido como se fosse uma mercadoria qualquer.

Hoje, na sequência de uma evolução positiva da consciência da humanidade, a escravatura – delito de lesa humanidade[4] – foi formalmente abolida no mundo. O direito de cada pessoa não ser mantida em estado de escravidão ou servidão foi reconhecido, no direito internacional, como norma inderrogável.

Mas, apesar de a comunidade internacional ter adotado numerosos acordos para pôr termo à escravatura em todas as suas formas e ter lançado diversas estratégias para combater este fenômeno, ainda hoje milhões de pessoas – crianças, homens e mulheres de todas as idades – são privadas da liberdade e constrangidas a viver em condições semelhantes às da escravatura.

Penso em tantos trabalhadores e trabalhadoras, mesmo menores, escravizados nos mais diversos sectores, a nível formal e informal, desde o trabalho doméstico ao trabalho agrícola, da indústria manufatureira à mineração, tanto nos países onde a legislação do trabalho não está conforme às normas e padrões mínimos internacionais, como – ainda que ilegalmente – naqueles cuja legislação protege o trabalhador.

Penso também nas condições de vida de muitos migrantes que, ao longo do seu trajeto dramático, padecem a fome, são privados da liberdade, despojados dos seus bens ou abusados física e sexualmente. Penso em tantos deles que, chegados ao destino depois de uma viagem duríssima e dominada pelo medo e a insegurança, ficam detidos em condições às vezes desumanas. Penso em tantos deles que diversas circunstâncias sociais, políticas e econômicas impelem a passar à clandestinidade, e naqueles que, para permanecer na legalidade, aceitam viver e trabalhar em condições indignas, especialmente quando as legislações nacionais criam ou permitem uma dependência estrutural do trabalhador migrante em relação ao dador de trabalho como, por exemplo, condicionando a legalidade da estadia ao contrato de trabalho… Sim! Penso no «trabalho escravo».

Penso nas pessoas obrigadas a prostituírem-se, entre as quais se contam muitos menores, e nas escravas e escravos sexuais; nas mulheres forçadas a casar-se, quer as que são vendidas para casamento quer as que são deixadas em sucessão a um familiar por morte do marido, sem que tenham o direito de dar ou não o próprio consentimento.

Não posso deixar de pensar a quantos, menores e adultos, são objeto de tráfico e comercialização para remoção de órgãos, para ser recrutados como soldados, para servir de pedintes, para atividades ilegais como a produção ou venda de drogas, ou para formas disfarçadas de adoção internacional.

Penso, enfim, em todos aqueles que são raptados e mantidos em cativeiro por grupos terroristas, servindo os seus objetivos como combatentes ou, especialmente no que diz respeito às meninas e mulheres, como escravas sexuais. Muitos deles desaparecem, alguns são vendidos várias vezes, torturados, mutilados ou mortos.

Algumas causas profundas da escravatura

4. Hoje como ontem, na raiz da escravatura, está uma concepção da pessoa humana que admite a possibilidade de a tratar como um objeto. Quando o pecado corrompe o coração do homem e o afasta do seu Criador e dos seus semelhantes, estes deixam de ser sentidos como seres de igual dignidade, como irmãos e irmãs em humanidade, passando a ser vistos como objetos. Com a força, o engano, a coação física ou psicológica, a pessoa humana – criada à imagem e semelhança de Deus – é privada da liberdade, mercantilizada, reduzida a propriedade de alguém; é tratada como meio, e não como fim.

Juntamente com esta causa ontológica – a rejeição da humanidade no outro –, há outras causas que concorrem para se explicar as formas atuais de escravatura. Entre elas, penso em primeiro lugar na pobreza, no subdesenvolvimento e na exclusão, especialmente quando os três se aliam com a falta de acesso à educação ou com uma realidade caracterizada por escassas, se não mesmo inexistentes, oportunidades de emprego. Não raro, as vítimas de tráfico e servidão são pessoas que procuravam uma forma de sair da condição de pobreza extrema e, dando crédito a falsas promessas de trabalho, caíram nas mãos das redes criminosas que gerem o tráfico de seres humanos. Estas redes utilizam habilmente as tecnologias informáticas modernas para atrair jovens e adolescentes de todos os cantos do mundo.

Entre as causas da escravatura, deve ser incluída também a corrupção daqueles que, para enriquecer, estão dispostos a tudo. Na realidade, a servidão e o tráfico das pessoas humanas requerem uma cumplicidade que muitas vezes passa através da corrupção dos intermediários, de alguns membros das forças da polícia, de outros atores do Estado ou de variadas instituições, civis e militares. «Isto acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro, e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de cada sistema social ou econômico, deve estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o dominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e chega o deus dinheiro, dá-se esta inversão de valores».[5]

Outras causas da escravidão são os conflitos armados, as violências, a criminalidade e o terrorismo. Há inúmeras pessoas raptadas para ser vendidas, recrutadas como combatentes ou exploradas sexualmente, enquanto outras se vêem obrigadas a emigrar, deixando tudo o que possuem: terra, casa, propriedades e mesmo os familiares. Estas últimas, impelidas a procurar uma alternativa a tão terríveis condições, mesmo à custa da própria dignidade e sobrevivência, arriscam-se assim a entrar naquele círculo vicioso que as torna presa da miséria, da corrupção e das suas consequências perniciosas.

Um compromisso comum para vencer a escravatura

5. Quando se observa o fenômeno do comércio de pessoas, do tráfico ilegal de migrantes e de outras faces conhecidas e desconhecidas da escravidão, fica-se frequentemente com a impressão de que o mesmo tem lugar no meio da indiferença geral.

Sem negar que isto seja, infelizmente, verdade em grande parte, apraz-me mencionar o enorme trabalho que muitas congregações religiosas, especialmente femininas, realizam silenciosamente, há tantos anos, a favor das vítimas. Tais institutos atuam em contextos difíceis, por vezes dominados pela violência, procurando quebrar as cadeias invisíveis que mantêm as vítimas presas aos seus traficantes e exploradores; cadeias, cujos elos são feitos não só de subtis mecanismos psicológicos que tornam as vítimas dependentes dos seus algozes, através de chantagem e ameaça a eles e aos seus entes queridos, mas também através de meios materiais, como a apreensão dos documentos de identidade e a violência física. A atividade das congregações religiosas está articulada a três níveis principais: o socorro às vítimas, a sua reabilitação sob o perfil psicológico e formativo e a sua reintegração na sociedade de destino ou de origem.

Este trabalho imenso, que requer coragem, paciência e perseverança, merece o aplauso da Igreja inteira e da sociedade. Naturalmente o aplauso, por si só, não basta para se pôr termo ao flagelo da exploração da pessoa humana. Faz falta também um tríplice empenho a nível institucional: prevenção, proteção das vítimas e ação judicial contra os responsáveis. Além disso, assim como as organizações criminosas usam redes globais para alcançar os seus objetivos, assim também a ação para vencer este fenômeno requer um esforço comum e igualmente global por parte dos diferentes atores que compõem a sociedade.

Os Estados deveriam vigiar para que as respectivas legislações nacionais sobre as migrações, o trabalho, as adoções, a transferência das empresas e a comercialização de produtos feitos por meio da exploração do trabalho sejam efetivamente respeitadoras da dignidade da pessoa. São necessárias leis justas, centradas na pessoa humana, que defendam os seus direitos fundamentais e, se violados, os recuperem reabilitando quem é vítima e assegurando a sua incolumidade, como são necessários também mecanismos eficazes de controle da correta aplicação de tais normas, que não deixem espaço à corrupção e à impunidade. É preciso ainda que seja reconhecido o papel da mulher na sociedade, intervindo também no plano cultural e da comunicação para se obter os resultados esperados.

As organizações intergovernamentais são chamadas, no respeito pelo princípio da subsidiariedade, a implementar iniciativas coordenadas para combater as redes transnacionais do crime organizado que gerem o mercado de pessoas humanas e o tráfico ilegal dos migrantes. Torna-se necessária uma cooperação em vários níveis, que englobe as instituições nacionais e internacionais, bem como as organizações da sociedade civil e do mundo empresarial.

Com efeito, as empresas[6] têm o dever não só de garantir aos seus empregados condições de trabalho dignas e salários adequados, mas também de vigiar para que não tenham lugar, nas cadeias de distribuição, formas de servidão ou tráfico de pessoas humanas. A par da responsabilidade social da empresa, aparece depois a responsabilidade social do consumidor. Na realidade, cada pessoa deveria ter consciência de que «comprar é sempre um ato moral, para além de econômico».[7]

As organizações da sociedade civil, por sua vez, têm o dever de sensibilizar e estimular as consciências sobre os passos necessários para combater e erradicar a cultura da servidão.

Nos últimos anos, a Santa Sé, acolhendo o grito de sofrimento das vítimas do tráfico e a voz das congregações religiosas que as acompanham rumo à libertação, multiplicou os apelos à comunidade internacional pedindo que os diversos atores unam os seus esforços e cooperem para acabar com este flagelo.[8] Além disso, foram organizados alguns encontros com a finalidade de dar visibilidade ao fenômeno do tráfico de pessoas e facilitar a colaboração entre os diferentes atores, incluindo peritos do mundo acadêmico e das organizações internacionais, forças da polícia dos diferentes países de origem, trânsito e destino dos migrantes, e representantes dos grupos eclesiais comprometidos em favor das vítimas. Espero que este empenho continue e se reforce nos próximos anos.

Globalizar a fraternidade, não a escravidão nem a indiferença

6. Na sua atividade de «proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade»,[9] a Igreja não cessa de se empenhar em ações de carácter caritativo guiada pela verdade sobre o homem. Ela tem o dever de mostrar a todos o caminho da conversão, que induz a voltar os olhos para o próximo, a ver no outro – seja ele quem for – um irmão e uma irmã em humanidade, a reconhecer a sua dignidade intrínseca na verdade e na liberdade, como nos ensina a história de Josefina Bakhita, a Santa originária da região do Darfur, no Sudão. Raptada por traficantes de escravos e vendida a patrões desalmados desde a idade de nove anos, haveria de tornar-se, depois de dolorosas vicissitudes, «uma livre filha de Deus» mediante a fé vivida na consagração religiosa e no serviço aos outros, especialmente aos pequenos e fracos. Esta Santa, que viveu a cavalo entre os séculos XIX e XX, é também hoje testemunha exemplar de esperança[10] para as numerosas vítimas da escravatura e pode apoiar os esforços de quantos se dedicam à luta contra esta «ferida no corpo da humanidade contemporânea, uma chaga na carne de Cristo».[11]

Nesta perspectiva, desejo convidar cada um, segundo a respectiva missão e responsabilidades particulares, a realizar gestos de fraternidade a bem de quantos são mantidos em estado de servidão. Perguntemo-nos, enquanto comunidade e indivíduo, como nos sentimos interpelados quando, na vida quotidiana, nos encontramos ou lidamos com pessoas que poderiam ser vítimas do tráfico de seres humanos ou, quando temos de comprar, se escolhemos produtos que poderiam razoavelmente resultar da exploração de outras pessoas. Há alguns de nós que, por indiferença, porque distraídos com as preocupações diárias, ou por razões econômicas, fecham os olhos. Outros, pelo contrário, optam por fazer algo de positivo, comprometendo-se nas associações da sociedade civil ou praticando no dia-a-dia pequenos gestos como dirigir uma palavra, trocar um cumprimento, dizer «bom dia» ou oferecer um sorriso; estes gestos, que têm imenso valor e não nos custam nada, podem dar esperança, abrir estradas, mudar a vida a uma pessoa que tateia na invisibilidade e mudar também a nossa vida face a esta realidade.

Temos de reconhecer que estamos perante um fenômeno mundial que excede as competências de uma única comunidade ou nação. Para vencê-lo, é preciso uma mobilização de dimensões comparáveis às do próprio fenômeno. Por esta razão, lanço um veemente apelo a todos os homens e mulheres de boa vontade e a quantos, mesmo nos mais altos níveis das instituições, são testemunhas, de perto ou de longe, do flagelo da escravidão contemporânea, para que não se tornem cúmplices deste mal, não afastem o olhar à vista dos sofrimentos de seus irmãos e irmãs em humanidade, privados de liberdade e dignidade, mas tenham a coragem de tocar a carne sofredora de Cristo,[12] o Qual Se torna visível através dos rostos inumeráveis daqueles a quem Ele mesmo chama os «meus irmãos mais pequeninos» (Mt 25, 40.45).

Sabemos que Deus perguntará a cada um de nós: Que fizeste do teu irmão? (cf. Gen 4, 9-10). A globalização da indiferença, que hoje pesa sobre a vida de tantas irmãs e de tantos irmãos, requer de todos nós que nos façamos artífices de uma globalização da solidariedade e da fraternidade que possa devolver-lhes a esperança e levá-los a retomar, com coragem, o caminho através dos problemas do nosso tempo e as novas perspectivas que este traz consigo e que Deus coloca nas nossas mãos.

FRANCISCUS

Quem não deseja a felicidade?

Muitas pessoas recebem a graça do derramamento do Espírito Santo, mas não conseguem progredir em sua caminhada de fé, porque vivem agarradas à tristeza. É semelhante ao que acontece com as parasitas que se agarram em árvores, sufocando-as e impedindo-as de dar frutos: acabam por matá-las. Da mesma forma acontece com as pessoas, que não conseguem produzir frutos, porque estão assolados por “essa praga”. Precisamos romper com toda tristeza para conseguir frutificar.

Abandonar-se à tristeza é permitir que se morra aos poucos. A alegria é como o oxigênio da nossa vida: se a perdemos e nos intoxicamos com a tristeza, somos arrastados para a morte. Se tomarmos consciência de que Deus está no controle da nossa vida, não teremos o que temer, pois tudo será motivo de ação de graças. A vontade de Deus para nós é alegria.

A tristeza de nada adianta; ela só abre a porta do nosso coração para o inimigo; e, quando isso acontece, ele assume o comando. É preciso resistir e deixar que o Espírito Santo encha o nosso coração de alegria, pois a alegria do Senhor é a nossa força. Para vivermos sempre alegres precisamos orar sem cessar: “Estai sempre alegres. Orai continuamente. Dai graças, em toda e qualquer situação, porque esta é a vontade de Deus, no Cristo Jesus, a vosso respeito” (1Ts 5,16-18).

Toda vez que surgir alguma dificuldade em sua vida, dê graças a Deus, porque essa é a vontade d’Ele. Mas faça isso de maneira verdadeira, docilmente, em uma atitude de total abandono de si mesmo.

Mesmo quando você se sentir um fracasso no namoro, no trabalho, nas amizades, lembre-se de que Deus está em tudo. Ele é o Senhor absoluto de todas as coisas. Nossa vida está em Suas mãos e a Ele cabem todas as decisões.

O Espírito Santo é como um tecelão que, pouco a pouco, vai trançado os fios, transformando-os em um tecido maravilhoso. Deus entretece os fios da nossa vida, e somente conseguiremos compreender o desenho quando ele já estiver concluído.

Pergunto-lhe: você já tem sua vida toda definida? Sei que sua resposta será “graças a Deus, não”. Enquanto o Espírito Santo não terminar de entrelaçar todos os fios, nem você nem ninguém será capaz de entender a obra-prima desse Tecelão.

Quando o Senhor trançar o último fio e der o nó final, então contemplaremos a maravilha de Sua obra. Enquanto esse momento não chega, só seremos capazes de ver o avesso do tecido. Teremos de viver pela fé e não pela visão. Esse é o momento do abandono e da confiança.

Deus quer soprar sobre nós o Seu amor para curar as feridas dolorosas que ficaram enraizadas. Ele quer erradicar toda causa de tristeza e decepção. E é o Espírito Santo que renova todas as coisas, arranca de nosso coração a tristeza, a amargura, a desilusão e as dores e coloca em seu lugar a serenidade e a alegria. O homem novo é aquele que traz a alegria, fruto do Espírito Santo, enraizada em si.

Assim como uma harpa, cujo som é uma linda harmonia, precisa ser muito bem afinada, nós também precisamos ser afinados. E quem realiza isso em nós é o Senhor, que nos restaura para entoarmos o som da alegria, da paz, da bondade, da delicadeza, da paciência e da mansidão.

Deus nos gera em Seu coração e nos faz criaturas novas, cheia de paz, amor e alegria. É ele quem harmoniza tudo dentro de nós.

Monsenhor Jonas Abib
Artigo extraído do livro ‘Combatentes na Alegria’

Peçamos a proteção de Maria para este novo ano que se inicia

Nós estamos hoje no primeiro dia do ano, celebrando a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Nós hoje queremos contemplar Jesus o Filho de Deus, Aquele que se encarnou no ventre de Maria e veio para nos resgatar.

O mistério de hoje não engrandece a pessoa de Maria, mas engrandece aquilo que Deus realizou nela: o Filho de Deus. O Verbo eterno de Deus assumiu a condição humana sem deixar de ser divino, sem deixar de ser Deus. Uma vez que nós reconhecemos que Jesus é Nosso Senhor, é Nosso Deus e Nosso Salvador e na condição humana nasceu da Virgem Maria; se reconhecemos que Ele é Deus, a Sua Mãe, na condição humana, é a Mãe de Deus.

Maria não veio antes de Deus, ela é uma criatura de Deus, como eu e você! Ela foi concebida no coração de Deus, Pai criador de todas as coisas, mas no mistério salvífico de Deus quis reinaugurar, recomeçar a história da humanidade numa nova terra.

Nossa Senhora foi concebida para gerar a nova criação de Deus e essa nova criação feita no princípio, com a Palavra de Deus é feita novamente, por esse mesmo Verbo, por essa mesma Palavra no ventre de Maria.

Hoje nós contemplamos o nascimento de uma nova humanidade, o nascimento dos filhos e filhas de Deus que não nasceram da carne, mas nasceram no Espírito, nasceram de Cristo Jesus, Nosso Senhor no ventre de Maria.

Com Maria, aquela que deu seu “sim” para o início de uma nova humanidade, nós queremos com ela iniciar uma nova etapa da nossa vida, queremos iniciar mais um ano da nossa existência dando o nosso “sim” a Deus, pedindo a bênção, a graça e a luz de Deus, mas suplicando que, por todos os dias deste ano que está se inaugurando, estejam conosco a intercessão, a proteção, o exemplo e o modelo da Bem-aventurada sempre Virgem Maria.

É a ti, Mãe de Deus e Mãe Nossa, que nós consagramos, que nós entregamos, que colocamos debaixo de sua proteção o novo ano de nossas vidas. Que tu estejas conosco, que a tua graça esteja caminhando conosco por todos estes dias de mais um ano!

Deus abençoe você!

Padre Roger Araújo
Sacerdote da Comunidade Canção Nova

Tenha um feliz e abençoado Ano Novo

Como Deus foi bom para conosco ao nos dar mais um ano em nossas vidas, ao nos dar a graça de viver o ano do Senhor de 2014! Quando olhamos para trás vemos que passamos por dificuldades, por momentos difíceis e por provações, mas não podemos deixar de reconhecer que a mão de Deus esteve conosco. Mesmo quando passamos por abismos, por momentos de escuridão e por momentos difíceis a mão de Deus esteve conosco. Por isso nós reconhecemos que, de Sua plenitude, todos nós recebemos graça por graça, porque tudo é graça!

É por isso que nós queremos fazer do dia de hoje um dia de ação de graças, agradecendo realmente a Deus a grandeza do Seu amor, do Seu poder, da Sua bondade, da Sua misericórdia e da Sua ternura para conosco. Agradecer a Deus porque Ele nos conduz pela mão e por nos dado o dom da vida, o maior dos dons!

A vida humana é tão desprezada, tão desmerecida, tão desvalorizada por muitos, de modo que, a cada dia vivido, nós só podemos reconhecer e engrandecer o amor desse Deus para conosco.

Nós queremos no dia de hoje também pedir perdão. Sim, perdão porque, muitas vezes, não somos gratos a Deus, não correspondemos ao Seu amor, não somos fiéis a Ele e não nos amamos como deveríamos amar uns aos outros. Perdão porque, em nosso coração, muitas vezes, as vozes do anticristo (como fala a Primeira Leitura da Missa de hoje) nos conduzem ao ressentimento, à mágoa, ao rancor e nos colocam uns contra os outros e, muitas vezes, tomaram conta do nosso coração. Perdão quando, muitas vezes, ouvimos mais o anticristo do que o Cristo.

Hoje nós queremos engrandecer Cristo Jesus, Nosso Senhor! Só Ele é Deus, só Ele é o Senhor, só a Ele pertence a nossa vida! Nós engrandecemos ao Senhor por este maravilhoso ano de 2014 e que venha 2015, um ano para servirmos a Ele e vivermos a Sua Palavra em nossa vida!

Um feliz e abençoado Ano Novo para você!

Padre Roger Araújo
Sacerdote da Comunidade Canção Nova

Festa da Santa Mãe de Deus

No Livro de Números, capítulo 6, Deus fala a Moisés que transmita as palavras de benção a Aarão e seus filhos. E eles são encarregados de abençoar os filhos de Israel. Essa missão passa aos sacerdotes que abençoavam o povo na festa do Ano Novo (Yom Kipur), invocando três vezes o nome do Senhor. A benção se fundamenta na eficácia da Palavra. A imposição do nome de Deus da Aliança era atualização da própria Aliança, com suas promessas e exigências, realizando a própria vinda de Deus com o dom da salvação.

Para o israelita, o nome significa a presença da própria pessoa. Esse dom se concretiza pelas três fórmulas de augúrio que acompanham o nome de Deus, exprimindo: a benção e a proteção – benção, fonte de vida e proteção traz segurança: a graça e a amizade: presença amiga de Deus que mostra um rosto sorridente; o acolhimento e o dom da felicidade: olhar benevolente e acolhedor de Deus; a paz é o estado de felicidade plena.

No Evangelho, o nome de “Deus que salva” foi dado a Jesus. Ele é a benção do Deus que salva a humanidade. Isto comporta dizer que Deus fala em seu Filho, nos abençoa por sua natividade. Para o povo israelita e todo o povo semita, a benção tem força para produzir a salvação.

A segunda leitura (Gl 4,4-7) aponta melhor em que consiste a graça e a benção de Deus: em sermos chamados de filhos e filhas de Deus a partir da encarnação. Os frutos que nos chegam pela benção de Deus, dita em seu Filho, no mistério de sua encarnação, têm a ver com a filiação divina que recebemos, por gratuidade, e que o texto exprime em termos de “adoção”. É como se disséssemos: pela encarnação a humanidade está tão impregnada de Deus que é chamada também de “filha de Deus”.
O Filho de Maria resgata-nos da Lei e nos torna filhos. A maior benção de Deus Pai, portanto, é seu filho Jesus, nascido de Maria, na plenitude do tempo messiânico, coroamento da esperança longamente guardada pelo povo.

Nasceu submisso à Lei, como sua Mãe, para que nos tornássemos filhos do mesmo Pai. Tornando-nos filhos, Deus enviou-nos o Espírito de seu Filho para que possamos clamar: Paizinho! Não somos escravos, mas filhos e herdeiros. Graças a Deus!

O Evangelho (Lc 2, 16-21) é a continuação a noite de Natal. Após terem recebido o anúncio do Anjo, os pastores vão comprovar a mensagem e voltam glorificando a Deus. No oitavo dia, realiza-se a circuncisão. Rito mediante o qual se começava a fazer parte do povo eleito, recebendo um nome que exprimia a missão que o novo membro assumia no conjunto do povo da aliança. Jesus será, como o nome indica, o realizador da salvação.

Em meio a esta dinâmica, o evangelista registra o papel de Maria, que guarda tudo na memória e medita. Maria torna-se assim modelo da Igreja que contempla os mistérios da vinda de Cristo.

Na verdade, o Evangelho salienta mais o rito da imposição do nome a Jesus, do que a própria circuncisão. O nome indicava a função que a pessoa iria desenvolver no meio do Povo da Aliança. Jesus é o realizador da salvação e quem o segue torna-se herdeiro desse nome, recebendo também a missão de dedicar a vida à salvação de tudo o que está perdido. Como Jesus, podemos ser benção de Deus que salva.

Em algumas situações, a benção tem se tornado algo meio infantil, certamente porque não conhecemos bem que abençoar é por o nome de Deus sobre o povo. É bom recuperar o sentido judaico da benção. Em muitas famílias, ainda há essa cultura preservada com muita seriedade e fé. A benção é sempre de Deus que nos guarda, nos ilumina, que é bondoso conosco, que nos mostra sua face de Pai e que nos dá a paz. Podemos ser portadores desses dons em nome do próprio Deus. A paz cultivada e desejada abrange todos os bens e dons, abundantemente derramada sobre todos nós.

Somos filhos (as) herdeiros (as) de Deus; não somos escravos (as), e podemos clamar como Jesus: Abba! Pai! Se chamamos Deus de Pai e nos sentimos filhos, reconheçamos que não somos filhos únicos, mas temos irmãs e irmãos que, como nós, precisam da benção e da paz.

Diocese de Limeira