Olhar a sua volta


Na busca incessante por um sentido na vida, corremos, diariamente, o risco de sermos levados pela distração. O passado e o futuro nos arrastam para um lado e para outro, e pouco conseguimos aproveitar do agora. Mais do que nunca, é preciso lutar por viver dignamente o presente, ou seja, centrar nosso coração no Reino de Deus. "Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a Sua justiça, e tudo mais lhe será dado por acréscimo" (Mt 6,33).

Acredito que este Reino não é nenhuma terra distante, que um dia esperamos alcançar, nem é a vida depois da morte ou um estado de vida ideal. Este Reino é, antes de tudo, uma presença ativa e constante do Espírito de Deus agindo em nosso íntimo e nos oferecendo em toda e qualquer situação a liberdade que tanto almejamos. O Reino do Senhor acontece aqui e agora, onde estou escrevendo; e aí, agora, onde você está lendo, porque em Cristo o Reino de Deus está ao alcance de todos nós.

Sendo assim, pode surgir a pergunta: "Como eu posso centrar, acima de tudo, meu coração no Reino de Deus se Ele está preocupado com tantas outras coisas neste mundo?" O Espírito Santo responde, revelando-nos que é necessária uma mudança de coração; uma mudança não de lugar, mas sempre de mentalidade, para vivermos esta feliz realidade.

Certa vez, perdi muito tempo tentando encaixar a alça do meu vestido no espaço errado; depois de diversas tentativas, já havia machucado a mão e quase rasgado parte da roupa sem sucesso. Estava atrasada, irritada e sentia-me ridícula por não conseguir algo que parecia tão simples. Mas o pior foi constatar que eu estava tentando encaixar a alça no lugar completamente errado, enquanto, ao lado, havia o espaço certo que encaixava perfeitamente e sem esforço nenhum, pois havia sido feito para isso.

O problema é que eu estava tão concentrada na minha própria ideia que não conseguia lançar um olhar e perceber o que estava ao meu redor, mesmo que fosse óbvio.

A conversão me parece um pouco isso. É olhar em volta e constatar que não somos sempre os donos da razão, que existem soluções além das que nós elegemos e que os nossos problemas, por maiores que pareçam, não estão fora do alcance de Deus.

Quando paramos um pouco e damos atenção à voz de um amigo, por exemplo; quando lemos um livro, ouvimos uma música, fazemos um retiro, em fim, quando tiramos o problema do nosso foco e ousamos olhar em volta, vemos que, muitas vezes, nós é que estávamos tentamos encaixar “a alça do vestido” no lugar errado e, por apego à nossa ideia, não conseguíamos olhar com calma e perceber que existia outro espaço apropriado para isso.

Quando temos coragem de olhar a vida por esse prisma, percebemos que, na maioria das vezes, preocupamo-nos excessivamente com coisas banais e por isso nos cansamos. Ou pior ainda, chegamos mesmo a nos machucar e aos que estão ao nosso lado, geralmente os que mais amamos, só porque estamos apegados por demais às nossas ideias. E a voz suave de Deus nos diz: “Dá uma olhada à Sua volta, centra Seu coração no meu Reino. Abra mão dos seus apegos e Eu lhe darei a liberdade e a paz que seu coração deseja.”

Que, hoje, seja um dia de olharmos à nossa volta e darmos passos firmes na direção que Deus nos inspira seguir sem medo.

Estamos juntos! Rezo por você.

Dijanira Silva

Domingo do Batismo do Senhor


Na 1ª leitura, Deus escolhe o Servo, ungindo-o com o seu Espírito, para ser a luz das nações, para implantar a justiça e o direito na terra. O Servo atua com meios pacíficos, em contraste com as forças militares dos reis opressores. A palavra profética ilumina e abre os olhos do povo exilado na Babilônia, tornando-o participante ativo no processo de libertação.

Na 2ª leitura, a voz do Pai ressoa no cosmo revelando a toda a humanidade, sem fazer acepção de pessoas, a sua salvação pela morte e ressurreição de Jesus. O essencial é a adesão ao Senhor, manifestada na prática da justiça. Jesus de Nazaré é o Ungido, isto é, o Messias, que passou a vida fazendo o bem e curando a todos.

O povo acorre a João para receber o batismo de conversão. Mas o precursor batiza e anuncia o mais forte, o Messias esperado, que batizará com o Espírito Santo e com fogo. E o próprio Jesus é batizado nas águas do Jordão. Depois de batizado, enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele, como pomba. Então, ressoou a voz do Pai: Tu és o meu Filho amado; eu, hoje, te gerei. O Espírito é expressão do amor do Pai e se manifesta de forma visível na vida de Jesus, através das palavras e ações libertadoras. Ele age como Servo e Filho amado do Pai, enviado para resgatar a dignidade do povo oprimido.

Revista de Liturgia

Somos chamados a partilhar o pão com misericórdia


Jesus se compadeceu da multidão que O seguia, pois era como que “ovelhas sem pastor”.

Os Evangelhos nos relatam que Ele – por duas vezes – multiplicou pães e peixes para atender à multidão que O seguia até uma região “deserta” (longe de cidades) e, ali, ficava ouvindo-O e recebendo curas, mas, por não se terem munido de alimentos, estavam a ponto de passar fome. Aproveitando o que os discípulos dispunham: cinco pães e dois peixes, mandou que o povo se assentasse em grupos de 100 e de 50. Tomando os pães e os peixes, Ele ergueu os olhos aos céus, deu graças e os abençoou. Depois, fez a repartição entre os discípulos e estes para o povo. Todos comeram à vontade: milhares de homens, além das mulheres e crianças. E como se não bastasse, ainda sobraram doze cestos com pedaços de pão e de peixe, que Jesus mandou recolher para nada se perder.

Assim como Jesus se compadeceu da multidão, também na nossa vocação cristã somos chamados a ter compaixão do povo, sobretudo do sofredor. Nossa vida cristã deve conduzir-nos à prática da misericórdia para com os irmãos. Esse é o grande testemunho de que o mundo precisa, e é uma exigência que brota das palavras de Jesus no Seu Evangelho: “Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor”.

Jesus conduz seus discípulos a um lugar deserto para que repousassem, atravessando o mar da Galileia em um barco. Porém, ao desembarcarem, já uma grande multidão os espera. Incansavelmente e tomado de compaixão, Ele se põe a lhes ensinar. Com o passar do tempo, faz-se necessário que todos se alimentem. A solução dos discípulos é que seja comprado o alimento. Jesus propõe outra solução: “Vós mesmos dai-lhes de comer!”, e eles não entendem. Abençoando cinco pães e dois peixes que tinham, Jesus os partilha com a multidão. Aqueles que tinham alimentos aderem à partilha e todos ficam saciados. Jesus toca os corações e os transforma pelo amor.

O milagre da multiplicação dos pães se chama misericórdia e compaixão, perdão, partilha, justiça, amor e paz.

Hoje, fala-se muito da fome no mundo. Quem não viu imagens de crianças famintas da África que mais parecem esqueletos? Deus conta conosco para repartir o Seu “Pão” com todos aqueles que têm fome de amor, de liberdade, de justiça, de paz, de esperança.

O pão partilhado sacia a fome de todos e ainda sobra. Não será esse o caminho a ser seguido, também em nossos dias, para resolver o grave problema da fome no mundo?

Padre Bantu Mendonça

Famílias, busquem o dom da sabedoria


 “Vejam! Hoje, eu estou colocando diante de vocês a bênção e a maldição. A bênção, se vocês obedecerem aos mandamentos de Javé seu Deus, que eu hoje lhes ordeno. A maldição, se não obedecerem aos mandamentos de Javé seu Deus, desviando-se do caminho que eu hoje lhes ordeno, para seguir outros deuses que vocês não conheceram” (Dt 11,26-28). Deus coloca para nós bênçãos, se formos obedientes; maldição, se formos desobedientes. 

Somos imagem e semelhança de Deus. A imagem depende d'Ele, mas a semelhança depende de nós. O Senhor moldou Adão, tornando-o um ser vivo, mas mesmo diante de todos os outros seres viventes que foram criados, ele não encontrou ninguém que o fosse semelhante. O Pai concedeu a Adão um sono profundo; ao acordar, ele viu ao seu lado Eva. Então, disse: "Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem!" Deus criou a mulher para que o homem não ficasse só. 

Ao passear pelo jardim, Eva deparou-se com a serpente, a qual a aconselhou a comer da árvore da vida, pois, assm, teria o conhecimento do bem e do mal. Eva aceitou a fruta, mesmo tendo Deus dito que não poderia comê-la. Perceba que Adão não estava junto de Eva quando esta foi tentada pela serpente. Muitas vezes, acontece o mesmo em nossos dias, quando a ausência, tanto do esposo quanto da esposa, dentro do lar, faz com que o mal destrua o casamento.

O pecado de Eva foi a desobediência. Não podemos usar as pessoas como moeda de troca, pois a traição é insinuada em diversas partes da sociedade. Não podemos permitir que Deus se afaste de nossas famílias. 

Pais, corrijam seus filhos, não permita que a desobediência entre em seu lar, pois vocês sabem o que é o melhor para eles. Na hora da correção, é dor, mas, lá na frente, é agradecimento. Sem sabedoria jamais seremos felizes, sem ela os casamentos não serão restaurados. 

“A Sabedoria é resplandecente, não murcha, mostra-se facilmente para aqueles que a amam. Ela se deixa encontrar por aqueles que a buscam. Ela se antecipa, revelando-se espontaneamente aos que a desejam. Ela mesma vai por toda parte, procurando os que são dignos dela: aparece a eles bondosamente pelos caminhos, e lhes vai ao encontro em cada um dos pensamentos deles. O princípio da Sabedoria é o desejo autêntico de instrução, e a preocupação pela instrução é o amor. O amor é a observância das leis da Sabedoria. Por sua vez, a observância das leis é garantia de imortalidade” (Sb 6,12-13.16-18). 

Aquele que ama deve instruir o outro, e para isso é preciso buscar o dom da sabedoria. Falta aos casamentos a sabedoria, pois a vida a dois é complexa, mas, hoje, há uma pressa de viver.

Precisa-se entender que tanto o homem quanto a mulher têm sonhos diferentes, e é preciso aprender a lidar com essas diferenças. Como duas pessoas, que pensam diferente, podem morar juntos e serem felizes? Com o uso da sabedoria.

Leve o casamento a sério, não brinque com ele, pois Deus não brinca com você. O que Deus uni, o homem não pode separar, porque o casamento é uma via de mão dupla, ou seja, se uma ganha, são os dois que ganham; se um perde, são os dois que perdem. 

As três colunas do casamento são:

Indissolubilidade - nada poderá separar o que Deus uniu;
Fecundidade - o casamento envolve os filhos. Se você não quer ter filhos, não se case.
Fidelidade - busque ser fiel a você, a Deus e ao seu esposo. 

O casamento precisa ser alegre aos olhos de Deus. Edifique seu casamento no Senhor. Cuide do seu coração, pois ele é morada divina.

Padre Crystian Shankar 

Domingo da Epifania do Senhor


Na 1ª Leitura, a palavra profética de Isaías convida ao compromisso de fidelidade à aliança e a celebrar a salvação de Deus que se manifesta em todos os povos. A presença do Senhor ilumina os que se unem para construir uma nova cidade, no amor e na justiça.

 A 2ª leitura mostra que o plano salvífico universal de Deus foi realizado plenamente através da vida, morte e ressurreição de Jesus. Assim, também “os gentios são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo e associados à mesma promessa em Jesus Cristo”.

Os sábios do oriente chegam a Jerusalém, atraídos pela luz do Senhor, e perguntam pelo rei dos judeus recém- -nascido. Herodes e toda Jerusalém ligada ao poder ficam alarmados, pois conhecem as esperanças messiânicas do povo. Da pequena Belém haveria de surgir o verdadeiro pastor para apascentar e guiar o povo no caminho da salvação. Os magos seguem os sinais de Deus, a estrela que conduz ao Messias Salvador e se alegram. Prestando reverência, oferecem presentes a Jesus. A tradição posterior reconheceu no ouro a realeza de Cristo; no incenso, sua divindade, e na mirra, sua humanidade. O gesto dos magos simboliza a adesão de todos os que reconhecem Jesus como Salvador. Sua fé no caminho do seguimento a Cristo prefigura a missão universal de fazer discípulos/as todas as nações.

Revista de Liturgia

Solenidade de Maria, Mãe de Deus


A 1ª leitura invoca o nome do Senhor, no início de cada versículo, para enfatizar que a eficácia da bênção provém dele, a fonte da vida.

Paulo, na 2ª leitura, lembra que Deus intervém na história humana, na plenitude do tempo, enviando seu Filho para realizar suas promessas.

No Evangelho, os pastores, após terem recebido a Boa Notícia do nascimento de Jesus Cristo, se dirigem às pressas a Belém. Eles encontram o sinal da salvação de Deus na simplicidade de um menino recém-nascido junto com Maria e José. Por isso, quando o viram, contaram as palavras que lhes tinham sido ditas a respeito do menino. Assim, os pastores se tornam anunciadores do Salvador, da luz que resplandece para todos os povos. As suas palavras e o seu testemunho deixam as pessoas admiradas, despertando-as para a fé e o seguimento a Jesus. Maria permanece na escuta da Palavra, meditando-a no seu coração. Os pastores voltam, louvando e glorificando por tudo o que tinham visto e ouvido. O Menino Deus é circuncidado no oitavo dia, como sinal da aliança e da inserção na sociedade.

Revista de Liturgia

Ano Novo, vida nova?


Mais um ano novo se aproxima. Neste tempo, a esperança se renova e, com isto, fazemos uma série de promessas para nós mesmos; fazemos planos, determinamo-nos a fazer uma série de coisas como: perder peso, estudar, fazer exercício físico, etc. Porém, muitas vezes, só nos recordamos destas promessas quando chega o final do ano e paramos para fazer um balanço do que vivemos. Neste momento, algumas pessoas simplesmente dizem para si mesmas que "desta vez vai ser diferente", e fazem novos planos. Outras, ao se depararem com seus planos não realizados, sentem-se fracassadas e frustradas.

Precisamos fazer uma boa análise do que vivemos no decorrer do ano, verificarmos quais as metas atingimos e o que faltou. Naquelas que não alcançamos, precisamos ter coragem para identificar o que realmente foi falha nossa, reconhecer os erros e os limites, e o que foi resultado de situações fora do nosso controle, como doenças por exemplo.

Naquilo que falhamos, o que realmente faltou? Muitas vezes, os planos que fazemos, no final do ano, são tomados no calor da emoção, movidos pelo impulso ou pela influência de amigos ou até da mídia, faltando um verdadeiro comprometimento interior, um planejamento. Planos ditos “da boca para fora” são repetidos ano após ano, sem chegar a nenhum resultado. Ficar se lamentando, reclamando de si mesmo e do mundo não leva a nada. É preciso uma atitude ativa e corajosa.

Convido você, então, para olhar para dentro de si e responder: o que realmente eu quero para 2013? Com o que realmente eu vou me comprometer? Mudança de vida exige comprometimento, exige renúncia e esforço. Metas e planos não são alcançados sem luta. Depois de responder esta pergunta, você precisa pensar: "Quais são os passos que preciso dar? Precisarei buscar ajuda de alguém ou de algum profissional?" Ou seja, se você quer chegar ao final do ano com seus planos realizados, é necessário planejar o que você vai fazer. Um cuidado que você precisa tomar é o de não se encher com muitos planos e metas, pois o risco de chegar ao final do ano e deparar-se com a mesma situação é grande.

Independente de qualquer coisa, saiba reconhecer os seus limites e falhas, e nunca se esqueça que sempre é tempo de recomeçar.

Que você tenha um 2013 feliz e abençoado.

Manuela Melo

Domingo da Sagrada Família de Jesus


A 1ª leitura orienta as relações familiares, lembrando aos filhos o dever de honrar pai e mãe, conforme ensina o quarto mandamento.

A 2ª leitura exorta a revestir-se das virtudes e atitudes essenciais para seguir o caminho da vida nova. Coloca o amor como vínculo da perfeição, pois leva a formar um só corpo em Cristo, solidificado por sua palavra.

O evangelho deste domingo chama a nossa atenção para a relação de Jesus com o Pai, sinalizando que sua missão ultrapassa os limites da família a que pertence. Aos 12 anos, tendo atingido a maturidade ele vai em peregrinação a Jerusalém. Após o término da festa, permanece em Jerusalém e os pais voltam para procurá-lo. Depois de três dias, o encontram no templo, sentado entre os mestres da Lei, participando ativamente do ensinamento. As pessoas ficavam maravilhadas com a sabedoria de Jesus. Ao vê- -lo, Maria disse: Filho, por que agiste assim conosco? A resposta de Jesus é um anúncio de sua identidade: Por que me procuravam? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?. O Filho está envolvido com as coisas do Pai, pois foi enviado para realizar a sua vontade. Jesus desce com os pais para Nazaré e era obediente a eles. Maria guardava todas estas coisas no coração. Como discípula, ela conserva os acontecimentos para compreender a missão do Filho. Jesus ia crescendo em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens, seguindo as etapas normais do crescimento humano.

Revista de Liturgia

Fim de ano, tempo favorável ao amor, à partilha, à revisão de vida ...


Há um clima diferente no ar. As despedidas do ano que termina e as expectativas para o ano vindouro nos contagiam. Seja pobre ou seja rico, adultos ou crianças, todos nós acabamos nos envolvendo nesta atmosfera de luz e festa. Parece que o amor e a paz, que emanam do presépio, atingem de cheio cada coração; até mesmo os mais fechados ou indiferentes à fé tornam-se generosos. Por isso, é uma época própria para confraternizações, revisão de vida, sonhos e esperança. É um tempo favorável ao amor, à partilha do que temos e, mais ainda, do que somos. Momento oportuno também para dar e receber o perdão, condição essencial para quem deseja um coração livre e, consequentemente, uma vida nova no ano que se aproxima.

É ainda época propícia para agradecermos a Deus por todos os benefícios que Ele nos concedeu durante o ano que termina; e apoiados nos sinais do Seu amor, é tempo de encontrarmos forças para acolhermos o ano novo cheios de esperança.
Agradecer é um gesto nobre e, cada vez mais, necessário em nossos dias. É de Deus que recebemos tudo que temos, desde a vida ao alimento, a saúde, a força e a inteligência para trabalhar; o ar que respiramos, o nascer e o por do sol, a beleza da natureza. Enfim, “em tudo isso há a mão de Deus”. Por isso, louvor e gratidão a Ele, Autor de todo bem!

Mas também é preciso agradecer às pessoas! Para sermos mais felizes, precisamos reconhecer quem realmente somos e isso nos leva a perceber que sozinhos dificilmente chegamos à realização, já que nossa vida está entrelaçada com a vida de milhares de pessoas por este mundo afora.

Portanto, neste clima de celebração, dar um abraço e olhar nos olhos daqueles que dedicam sua vida para nosso bem-estar, talvez tenha muito mais sentido do que enviar um cartão ou até mesmo um valioso presente.

Conheço uma senhora que, anos atrás, em um tempo como este, desabafou comigo: “Ganhei muitas coisas dos meus patrões neste fim de ano, cesta de Natal com vinho e panetone e até me deram um perfume. Mas de que adianta? Trabalhei até tarde, todos os dias, e eles nem me disseram obrigada; nem se quer me desejaram Feliz Ano Novo. Isso para mim seria mais importante do que presentes”.

Já faz um tempo que ouvi isso, mas até hoje me recordo do ar de tristeza que envolvia aquela senhora. Por isso, fiquemos atentos aos nossos gestos. Na verdade, o ser humano tem sede de amor, de reconhecimento, de afeto, de olhos nos olhos e palavras de incentivo; e isso não se compra com dinheiro, mas se dá, gratuitamente, e se transmite nos pequenos acontecimentos do dia a dia.

Que bom saber que o ano novo se aproxima e nos dá uma nova chance de acertar! Reconhecer nossos limites já é um bom começo de uma vida nova. Afinal, depois dos festejos, a vida nos desafia a seguir viagem e nossas escolhas serão determinantes. Quem deseja recomeçar com leveza e paz, por exemplo, deve ser mais humilde e deixar muito peso para trás de si mesmo, optando pela novidade de cada dia. O homem que não se renova, perde-se, infantiliza-se, sente-se pesado e se cansa com pouca coisa.

É claro que o passado tem seu valor, mas não podemos nos prender a ele. Se o que aconteceu foi bom, ótimo, lembremos com gratidão. Mas se não foi como desejávamos, devemos entregar nossas dores e decepções a Deus e não tentarmos carregá-las como se fossem um fardo em nossas costas.

Lembremo-nos que nossa vida não termina aqui. Nascemos para o alto e, neste mundo, tudo é passageiro. Portanto, entre um ano que termina e outro que começa, caminhar é preciso. Quando faltar forças, caminhe devagar, mas não pare. Por onde for, procure levar o essencial e mantenha seu olhar fixo na meta, lá no alto, mesmo que permaneça com os pés no chão.

Se achar necessário, pare um pouco e pense sobre sua vida. Não tenha medo de reconhecer os erros e acertos; acima de tudo, lute para dar a vitória ao amor. Só é feliz quem ama.

Deixe o ano que termina levar tudo que é dor, solidão, mágoa e ressentimento. Leve para o ano novo somente o que é bom, justo e nobre. Soluções, respostas, abraços, sorrisos, liberdade, justiça, amor, paz e esperança. Tenha certeza: o mundo será melhor com sua colaboração!

Se começar o ano com gratidão, confiança na misericórdia de Deus e cheio do Espírito Santo, com o coração livre de todo apego às coisas vans e dispostos a amar mais do que ser amado, certamente seu ano será sempre novo e sua vida será mais feliz de janeiro a dezembro.

Que assim seja! Uma feliz vida nova para todos nós!

Dijanira Silva

Sagrada Família de Nazaré


Após o Natal, a Igreja põe, diante de nossos olhos, para serem contemplados em detalhes, os diversos quadros que se sucederam ao grande acontecimento. Chama à atenção, de modo especial, a realidade da família, a Sagrada Família de Nazaré: Jesus, Maria e José. Deus, que é Todo-Poderoso, poderia inventar outras formas para Seu Filho vir ao mundo e salvá-lo, mas quis que tudo acontecesse pelo meio mais comum, ou seja, uma família humana, com tudo o que isso significa: casa, trabalho, afeto, dificuldades mil, enfermidades, vizinhança, envolvimento com a sociedade e daí por diante.

No entanto, esta família foi pensada justamente no céu, no seio da Trindade, para ser um de seus mais lindos reflexos aqui na terra. Ela é “sagrada”. Tudo o que faz parte do plano de Deus tem esta sacralidade característica. O sagrado é “separado” do resto e preservado pelo seu imenso valor, enquanto portador de tesouros destinados ao bem de todos os filhos do Senhor. Nunca o sagrado seja visto pelos cristãos como ameaça ou proibição, mas sempre como ideal a ser acolhido e alcançado, para que não falte a graça de Deus.

Sagrada é aquela família pela presença de Maria, Virgem e Mãe, Escrava do Senhor, a qual se deixou revestir da Palavra de Deus, pronta a servir e amar, discípula de seu próprio Filho, esposa, mãe e viúva, mulher forte como a vemos aos pés da cruz, mulher da prece e do louvor no testemunho do Magnificat. Sagrada é a família, porque é conduzida por José, homem elogiado por uma expressão riquíssima de significado na Escritura: “justo”, o oposto do ímpio. Nenhuma palavra sua foi registrada na Bíblia, mas o que ele fez, as sábias decisões tomadas para ser fiel a Deus, tudo resume a altura a que chegou aquele carpinteiro de Nazaré.

Sagrada Família, porque sua razão de ser era o acolhimento do Messias Salvador, Jesus Cristo, Filho de Deus, chamado Filho do Homem! Sagrada Família, porque tabernáculo protetor da presença de “Deus conosco – o Emanuel”.
Todas as relações existentes numa família ali se encontram: responsalidade, paternidade, maternidade, filiação. O Pai do Céu certamente tinha algo a dizer quando assim constituiu a Família de Nazaré. “E Jesus, no limiar da sua vida pública, realiza o Seu primeiro sinal – a pedido de Sua Mãe – por ocasião de uma festa de casamento". A Igreja atribui uma grande importância à presença de Jesus nas bodas de Caná. Ela vê, nesse fato, a confirmação da bondade do matrimônio e o anúncio de que, doravante, o matrimônio seria um sinal eficaz da presença de Cristo. Na Sua pregação, Jesus ensinou, sem equívocos, o sentido original da união do homem e da mulher, tal como o Criador a quis no princípio: a permissão de repudiar a sua mulher, dada por Moisés, era uma concessão à dureza do coração, mas a união matrimonial do homem e da mulher é indissolúvel: foi o próprio Deus que a estabeleceu: ‘Não separe, pois, o homem o que Deus uniu’” (Mt 19, 6; cf. Catecismo da Igreja Católica, números 613-614)

Há um plano de Deus, revelado desde a criação, para a família. “O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenado por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole entre os batizados foi elevado por Cristo Senhor à dignidade de sacramento” (CIC 1601). Ainda que com o devido respeito aos direitos de todas as pessoas e sem discriminar quem quer que seja, é fácil entender que a proposta para a família, vinda da Escritura e da história da Igreja, tem suas características próprias, que desejamos respeitadas e reconhecidas. Não temos “em oferta” para as pessoas e grupos outros modelos de família entre os cristãos, a não ser a família monogâmica e exclusiva, entre um homem e uma mulher, aberta à vida, capaz de contribuir na obra criadora de Deus e o bem da sociedade. Quem escolher o Cristianismo terá a alegria de optar por esta estrada quanto à formação de uma família, o que não significa lançar sentenças condenatórias ou entrega aos poderes do inferno das pessoas que não vivem assim. Deus é eterno em seu amor e encontrará as formas para tocar o coração de todos os homens e mulheres.

Retornando a Nazaré, as famílias de nosso tempo, que desejam ser famílias e sagradas, são convidadas pela Igreja a se espelharem em Jesus, Maria e José. A leitura dos Evangelhos nos faz identificar uma família que reza (cf. Lc 2,41-42), busca a vontade do Pai (cf. Mt 1,18-24; Mt 2,13-23; Mc 3,33), enfrenta as dificuldades, como a falta de hospedagem em Belém ou a perseguição de Herodes (cf. Lc 2,1-7; Mt 2,13-18), trabalha (“não é este o carpinteiro, o filho de Maria?” – Mc 6,3), enfrenta a dura realidade da Cruz (“Junto à Cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe e a irmã de sua Mãe, Maria de Cléofas, e ainda Maria Madalena” – Jo 19,25). Os laços familiares ainda estarão presentes na preparação da vinda do Espírito Santo, após a Ressurreição e a Ascensão, em oração, junto aos discípulos de Jesus (cf. At 1,14).

Sagrada Família de Nazaré! A ela confiemos nossas famílias e todas as famílias de nosso tempo: “Ó Deus de bondade, que nos destes a Sagrada Família como exemplo, concedei-nos imitar em nossos lares as suas virtudes para que, unidos pelos laços do amor, possamos chegar um dia às alegrias da vossa casa. Amém.”


Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém - PA