33º Domingo do Tempo comum - Domingo dos sinais dos tempos


A 1ª leitura fala da esperança de salvação. A promessa da ressurreição impele a viver a justiça em meio às perseguições, por causa da fidelidade à aliança. Jesus, vencendo a morte pela ressurreição, realiza plenamente a esperança da vida eterna.

Na 2ª leitura, a experiência da comunhão faz vislumbrar a felicidade no Reino celeste. Cristo com uma única oferenda levou à perfeição definitiva os que ele santifica. A fé proporciona participar da obra redentora de Cristo e viver a vida nova.

O evangelho reflete um contexto assinalado por conflitos, sobretudo a guerra judaica, marcada pela destruição do templo e da cidade de Jerusalém. Renasce a tradição profética e apocalíptica, com a esperança de um tempo novo de salvação. A manifestação gloriosa de Jesus é descrita com a fé pascal: após a grande tribulação, verão o Filho do Homem vindo entre nuvens com grande poder e glória. Jesus é a luz que vence as trevas da opressão e da morte através da ressurreição. Sua presença de paz estabelecerá definitivamente o Reino de Deus, já revelado com sua vida. A espera da revelação plena do Reino deve ser ativa, como mostra a imagem da figueira. Os ramos verdes e as folhas que brotam são sinais da ação de Deus nos acontecimentos da história. As palavras de Jesus não passarão, pois seu valor é eterno. Foram guardadas pelos primeiros cristãos e permanecem para revigorar o compromisso a serviço do Reino.

Revista de Liturgia 

Tenho um coração agradecido diante de Deus?


 “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?” A obediência daqueles dez leprosos à Palavra de Jesus os levou à cura, mas, aparentemente, a falta de gratidão de nove agraciados os desvia de quem foi o Salvador. Em Jesus, aquele leproso samaritano – infiel e herege segundo os judeus – encontrou o Deus verdadeiro e o Seu representante na terra. Por isso, dirá Jesus ao samaritano: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou”. Há, pois, um contraste entre cura e salvação que o mundo atual não percebe, porque os bens imediatos – embora não sejam tudo – são os únicos que interessam e preocupam à maioria.

Aqueles leprosos marginalizados aproximam-se de Jesus. Apesar de sua total culpabilidade perante Deus e os homens, eles têm esperança. Sua cura dependia daquele Mestre, de quem tinham ouvido falar como grande médico e curandeiro. O grito deles pode ser também o nosso, quando a esperança só tem como base a bondade divina: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”

Como pensamos que Deus vê nossas vidas? Limpos e puros ou tão terrivelmente marcados pelo mal que parecemos leprosos cheios de imundície?

O ponto de partida para a ação divina é a súplica. Jesus não os busca; são eles que buscam Aquele que tem poder para curá-los. O resto é um mandato: conformem-se com a Lei, se é que querem viver em sociedade novamente. No tempo do profeta Eliseu, Naamã recebeu a ordem de se lavar no Jordão. Agora, com Cristo, os dez leprosos foram enviados ao sacerdote. Nada há de anormal ou extraordinário em ambas ocasiões. É a obediência que atrai a ação de Deus e transforma o homem em Seu Filho amado no qual encontra satisfação.

O agradecimento é essencial nas relações com Deus. Todos nós somos semelhantes aos nove leprosos curados. Incapazes de uma súplica que não seja uma petição de ajuda. Uma vez obtida a mesma, esquecemos o louvor, o elogio, a ação de graças. Nossa religiosidade tem muito de oportunismo, de interesse, de ingratidão. Conformamo-nos com o nosso bem-estar e esquecemos o muito que temos recebido como dom. O pouco mal que nos atinge não nos permite enxergar o muito de bem que nos rodeia. Por isso, a queixa é mais abundante que o louvor.

Por esse egoísmo próprio de quem só olha seu próprio bem, esquecemo-nos que os bens são fruto de uma dádiva divina. Não nos servimos de Deus, nós servimos a Ele. E a melhor maneira de servi-Lo é agradecê-Lo e obedecê-Lo.

Esquecemos que os bens agora possuídos são uma simples amostra do que nos espera se a gratidão toma conta de nossas vidas. O canto às misericórdias de Deus, nesta vida, é só o começo do canto sem fim que será o “modus vivendi” na eternidade.

Desde já, devemos aprender a recitá-lo, caso queiramos vivê-lo como experiência existencial.

A gratidão implica em ações de graças, pelas quais comunicamos e partilhamos com os outros os bens recebidos por nós.

Pai, que o meu coração, repleto de fé, reconheça Jesus que me liberta de todas as lepras que o mundo semeia entre os homens.

Padre Bantu Mendonça

32º Domingo do Tempo comum - Domingo da esmola da viúva


A viúva anônima da entrada do templo lembra a de Sarepta, que ofereceu hospitalidade e partilhou o pouco alimento que possuía, na 1ª leitura. A esperança na palavra de Deus suscita gestos solidários que asseguram a sobrevivência durante a seca, no tempo do profeta Elias.

A 2ª leitura ressalta que Cristo oferece sua vida pela redenção da humanidade, transcendendo os sacrifícios que anualmente eram repetidos no dia do Grande Perdão.

No Evangelho, Jesus está no templo de Jerusalém, centro da vida e religião de Israel, lugar onde as pessoas costumavam fazer suas oferendas e sacrifícios. A palavra de Jesus ilumina a tomar cuidado com os que devoram as casas das viúvas, enquanto ostentam longas orações. As viúvas, além de marginalizadas, eram exploradas com frequência. Por isso enquanto observa como a multidão depositava as moedas no cofre, Jesus enaltece a ação de uma viúva pobre que ofereceu duas moedinhas, isto é, um quadrante (valor mínimo em circulação). Essa viúva generosa e confiante na graça divina é apresentada por Jesus como modelo no caminho do discipulado. Sua atitude é elogiada porque ela ofereceu tudo o que tinha para viver, não apenas o excedente como os outros. A ação da viúva ao colocar toda a vida nas mãos do Pai, é comparada com a oferta total de Cristo, por amor.

Revista de Liturgia

O verdadeiro amor é eterno


Nos dias de hoje, o amor se apresenta a nós de forma cada vez mais distorcida, pois se apela cada vez mais para os sentimentos, as paixões, os sonhos, as fantasias. Esse falso amor se apresenta nas músicas, nos filmes, nos videoclips, na fotografia. Esse amor irreal também faz parte da vida de muitas pessoas, no “ficar”, no namoro e até mesmo no casamento. Hoje em dia, muitas pessoas vivem anestesiadas pelas paixões, pelos falsos amores, pois desconhecem o verdadeiro amor.

O falso amor é convidativo, sedutor, pois explora as fantasias, as imagens, os sentimentos. Estes dão uma falsa impressão de amor, que se confunde com a paixão, o desejo, a luxúria. Essa caricatura de amor se faz presente principalmente nas novelas, nos filmes, nas séries e minisséries que assistimos. Isso faz com que, inconscientemente, façamos da nossa vida um prolongamento da vivência desse falso amor, movido somente pelo desejo, pelas paixões, pela fantasia.

Cada vez mais nos deparamos com pessoas feridas, machucadas por causa do engano desse “amor” que destrói amizades, relacionamentos, casamentos, famílias. Não podemos ficar indiferentes diante desse fenômeno, o qual, se não tomarmos consciência, fará parte de nossas vidas sem que o queiramos. Não deixemos que nossos relacionamentos sejam influenciados por um romantismo vazio, próprio de um amor falso e passageiro, pois fomos criados pelo amor de Deus, e somente Ele é capaz de nos realizar.

O verdadeiro amor se manifestou a nós em Jesus Cristo. “De fato, Deus amou tanto o mundo que deu o Seu Filho único para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). O Pai enviou Seu Filho ao mundo pela Virgem Maria e é por ela que temos acesso ao verdadeiro amor de forma mais perfeita. Nossa Senhora nos ensina a acolher o amor de Deus encarnado, que é Jesus Cristo em nossas vidas. Consagremo-nos a Maria de todo o coração para que por ela conheçamos o amor que foi até as últimas consequências, no Calvário, no alto da cruz, por amor de nós.

Com a Virgem Santíssima, coloquemo-nos junto da cruz de Jesus, oferecendo nossas dores, nossos sofrimentos, mas também nossas alegrias e esperanças, unindo-nos ao único e eterno sacrifício de Cristo, pois, na cruz, conhecemos o amor verdadeiro, aquele não foge diante do desprezo, da humilhação, do sofrimento. Ao contrário, o verdadeiro amor, que se manifesta também em nós, assume a cruz da angústia e da dor, pois o sacrifício é próprio dele. Não nos enganemos, mas acolhamos o verdadeiro amor, Jesus Cristo Nosso Senhor, que veio ao mundo pelas mãos maternas da Virgem Maria. Por ela, Jesus vem a nós todos os dias até a consumação dos séculos e também no Reino dos Céus, pois o verdadeiro amor é eterno.

Natalino Ueda - Comunidade Canção Nova

5 de Novembro - Dia de São Zacarias e Santa Isabel


Neste dia recordamos a vida do casal que teve na Palavra de Deus o principal testemunho de sua santidade, já que eram os pais de João Batista, o precursor de Jesus Cristo. Pelo próprio relato bíblico descobrimos que viviam na aldeia de Ain-Karim e que tinham laços de parentesco com a Sagrada Família de Nazaré.

"Havia no tempo de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote chamado Zacarias, da classe de Ábias; a sua mulher pertencia à descendência de Aarão e se chamava Isabel" (Lc 1, 6).

Conta-nos o evangelista São Lucas que eram anciãos e não tinham filhos, o que acabava sendo vergonhoso e quase um castigo divino para a sociedade da época. Sendo assim recorreram à força da oração, por isso conseguiram a graça que superou as expectativas. Anunciado pelo Anjo Gabriel e assistido por Nossa Senhora nasceu João Batista; um menino com papel singular na História da Salvação da humanidade: "pois ele será grande perante o Senhor...e será repleto do Espírito Santo desde o seio de sua mãe (Santa Isabel). Ele reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus" (Lc1, 15s).

Depois do Salmo profético de São Zacarias, onde ele, repleto do Espírito Santo, profetizou a missão do filho, perdemos o contato com a vida do casal, que sem dúvida permaneceram fiéis ao Senhor até o fim de suas vidas. Assim, a Igreja, tanto do Oriente quanto do Ocidente, reconhecem o exemplo deste casal para todos os casais, já que "ambos eram justos diante de Deus e cumpriram todos os mandamentos e observâncias do Senhor" (Lc 1, 6).

São Zacarias e Santa Isabel, rogai por nós!

Solenidades de todos os Santos e Santas de Deus


Na 1ª leitura, os fiéis alvejaram suas vestes, deixando-se transformar pela vida, morte e ressurreição de Jesus. A grande multidão, de todas as nações, entoa o cântico da salvação a Deus e ao Cordeiro. O número 144 mil, que abrange 12 mil de cada uma das tribos de Israel, tem sentido simbólico e refere-se à totalidade do povo.

A 2ª leitura acentua que já experimentamos a bondade do Pai por sermos filhos. Isso nos compromete a uma vida de santidade com Cristo, confiando na realização plena da salvação, quando seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é.

O evangelho apresenta as bem-aventuranças, que abrem de forma solene o Sermão da Montanha. O Mestre Jesus proclama o seu ensinamento como a nova justiça, o alegre anúncio da chegada do Reino aos pobres e necessitados que confiam no amor gratuito de Deus. Ele consola os aflitos que estão empenhados em construir a fraternidade. Enaltece os mansos que renunciam a toda forma de violência. Mostra que a misericórdia está ligada ao perdão e ao amor incondicional, pois é um dos atributos máximos de Deus, sendo aconselhada também ao ser humano. Declara feliz quem vive a pureza no coração, relacionada com a justiça e a fidelidade à aliança. Indica o caminho para a promoção da paz “shalom”, como realização plena do anúncio profético messiânico. As promessas e as recompensas se realizarão plenamente no Reino de Deus, quando os oprimidos, os famintos e os perseguidos por causa da justiça serão consolados com a terra e o céu.

Revista de Liturgia

Construa o seu lar através do amor


O homem que constrói sua casa sobre a areia está fadado a vê-la desmoronar com a chegada da ventania e da tempestade: “Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína” (Mateus 7,24-27).

Temos assistido ao triste espetáculo do desmoronamento das nossas casas. São lares confiados a nós por Deus, mas construídos sobre a areia. São famílias construídas na sabedoria do mundo.

Infelizmente, nossos lares deixaram de ser construídos na rocha: não são mais construídos em Deus.

Posso testemunhar a respeito da minha família: a vida dos meus pais foi, desde o começo, muito difícil. Enfrentaram grandes problemas, dificuldades e muita pobreza. Mamãe era filha do terceiro homem mais rico e elegante da cidade, cujo o carro era o único da região. Ela o auxiliava nos negócios. Quando papai chegou, era pedreiro, de condição humilde, simples e, devido a isso também, os dois enfrentaram problemas para se casar.

Daí para frente, mamãe passou a viver como se fosse deserdada, pois tinha se casado, contra a vontade do meu avô, com um pedreiro educado de maneira diferente à dela, com modos e comportamentos desiguais. Acostumada com o melhor, minha mãe casou-se e foi morar na roça. Depois, mudaram-se para São Paulo e passaram a morar num porão! Imagine tudo o que aconteceu: decepção, pobreza, dureza do dia a dia...

Meu pai era um homem justo. Desde os sete anos, já trabalhava com seus irmãos no trabalho duro de mata. Carregava naquelas carroças, rústicas e perigosas, grandes toras de madeira. Eram – minha mãe e ele – visivelmente opostos, tendo, então, motivos suficientes para não se entenderem; havia o que se poderia chamar de "incompatibilidade de gênios", mas, graças a Deus, os dois sofreram muito, um com o outro e um pelo outro.

Minha mãe poderia largar tudo e voltar para casa do meu avô. Ela sempre cuidou dos negócios do pai; com certeza, meu avô precisaria dela novamente. Caso minha mãe voltasse, meu avô a receberia de braços abertos. Mas, graças a Deus, não desistiram. Lutaram, sofreram, rezaram, pediram, insistiram, teimaram... e construíram um lar.

Que família bonita eles formaram! Eu não tenho outra explicação: sou fruto da imolação de meus pais. Sou um fruto para testemunhar ao mundo que vale a pena perseverar, suportar, amar. O Senhor nos diz, em sua Palavra, que para haver salvação e ressurreição é preciso haver sangue e muitas lágrimas. Sou fruto do amor sofrido de meu pai e de minha mãe. Tenho um irmão e quatro irmãs que também são frutos desse lar construído na dor dos meus pais. Tenho a certeza de que meus pais construíram a "arca" e nos deixaram a responsabilidade de continuar a construção.

Todos nós somos frutos de lares assim: de pai e de mãe que sofreram para construir. Quem constrói sabe que não existe construção fácil: é suado, dolorido, demorado, porém, bem alicerçado.

O Senhor nos chama a deixar a mentalidade que o mundo e a televisão nos têm transmitido, para sermos os reconstrutores desta arca de salvação que é a família, em base sólidas. Não mais construídas na areia, no egoísmo, mas reconstruídas no amor, em Deus. Isso significa doação, entrega, dor...

Não existe ato de amor mais lindo do que gerar, mesmo quando isso nos faz sofrer! O amor é doloroso como o parto!

O Senhor nos convida para sermos os construtores da nossa casa. E Ele próprio nos mostra os meios: a Palavra de Deus, a oração, os mandamentos divinos, o sofrimento acolhido com amor. Uma casa construída sobre a rocha, que é Deus.

Nossa geração aplaude os que vivem na infidelidade, no adultério, e nos induz a fazer o mesmo. Nossas famílias são violentamente agredidas.

Deus quer salvar você e toda a sua família. Você é o "Noé" que Deus escolheu para reconstruir a "arca", que é a sua casa.

Deus o abençoe!

Monsenhor Jonas Abib

Solenidade de Todos os Santos


A solenidade em honra de todos os Santos é uma das mais antigas. Foi, porém,o Papa Gregório IV que em 835 quem ordenou que esta festa fosse celebrada no mundo inteiro. Trata-se de comemorar a memória de todos aqueles que já se acham no reino do céu, partilhando a alegria de Deus. Nesta data se coloca a questão: Que é um santo? No exórdio do Sermão da Montanha Jesus fez o retrato falado dos eleitos, dos bem-aventurados ( Mt 5,1-12). A fonte desta santidade é Deus, três vezes santo (Is 6,3). É impossível expressar com palavras a santidade divina que transcende infinitamente todas as criaturas. O ser pensante pode e deve participar, dentro de suas limitações, desta perfeição inefável do Criador que ordenou: “Sede santos, porque eu sou santo” (Lev 11,44). O salmista oferece também um roteiro admirável para seguir este preceito divino: “Senhor, quem há de morar em vosso tabernáculo? Quem habitará em vossa montanha santa? O que vive na inocência e pratica a justiça, o que pensa o que é reto no seu coração, cuja língua não calunia; o que não faz mal a seu próximo, e não ultraja seu semelhante. O que tem por desprezível o malvado, mas sabe honrar os que temem a Deus; o que não retrata juramento mesmo com dano seu, não empresta dinheiro com usura, nem recebe presente para condenar o inocente. Aquele que assim proceder jamais será abalado” (Sl 14).

A santidade consiste, portanto, numa adesão total às sagradas leis divinas numa atitude inteiramente voltada para Deus. Para o batizado se trata de uma vida nova em Cristo animada pelo Espírito Santo. Entretanto, cumpre se observe que não há santidade sem se passar pelo Calvário. O cristão santo tem que se mortificaroração numa série de esforços perfeitamente positivos e sob o impulso de ardente amor ao Ser Supremo. Amar é preferir, ou seja, sacrificar as preferências próprias, para acatar as propostas do Criador. Amar é o sair de si mesmo para o outro, isto é, para Deus e para o próximo. Amar a todos como Jesus os ama, ou seja, com uma dileção pessoal até o sacrifício. É o sentir o irmão na fé, dando-lhe espaços, ajudando-o a carregar o fardo de cada hora. Tudo isto sob os acordes do belo hino entoado por São Paulo: “A caridade é paciente, é benigna; a caridade não é invejosa, não se ufana, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal. Não folga com a injustiça, mas alegra-se com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê e, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13,4-7).

Os santos que já estão na pátria celeste realizaram de maneira excelente aquilo que todo cristão deve sempre praticar, se estiver cônscio de sua vocação. Para que isto aconteça cumpre deixar o Espírito Santo agir. Ele confere a toda ação a qualidade espiritual que leva cada um a progredir sempre nos caminhos da perfeição. Assim sendo, as tarefas são serenamente executadas. Ser santo não é ficar rezando o tempo todo, mas, tendo cada um reservado momentos para suas preces individuais ou comunitárias, é transformar os demais atos diários, ainda os mais absorventes, em oração. A atividade nos múltiplos afazeres também enriquecem a espiritualidade e faz crescer na graça santificante. É mister captar a espiritualidade que está inerente na própria atividade, mesmo porque em qualquer circunstância cada um está a serviço do outro. É só dar uma aplicação transcendental ao que se está realizando sob o impulso do amor a Deus e ao próximo, dando qualidade sobrenatural àquilo que se faz. Em outros termos, é de vital importância a encarnação da espiritualidade na ação, o que conduz a um crescimento na santidade existencial. Isto bem dentro da diretriz do Apóstolo: “Quer comais ou bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (1 Cor 10,31).

É no cotidiano, nas mais pequeninas atividades que se opera a santificação pessoal daqueles que acreditam em Cristo. Eis por que todos os que permanecem fiéis, firmes na sua fé, arraigados na esperança, perseverantes na caridade, podem ser considerados como santos. Este deve ser o ideal de todo cristão, não sendo isto uma honra reservada apenas a alguns privilegiados. O importante é estar movido pelo espírito de Jesus e este espírito não deixa que se esteja longe da participação da vida de Deus e aí está já configurada a salvação. Não há distinção entre ser salvo e ser santo. É preciso ser santo para ser salvo. Todas estas verdades devem ser aprofundadas no dia dedicado àqueles que já estão na Jerusalém celeste, para que não se perca o rumo da Casa do Pai.

Retirado do Site da Comunidade Shalom

Dia de Finados


Cada ano, a comemoração litúrgica de Finados proporciona-nos uma rica oportunidade de refletir sobre a morte. Parece-me muito válido recordar verdades que são úteis ao bem-estar espiritual e social. Importantes conclusões poderão advir da meditação sobre essa realidade. Na sociedade moderna, vivemos como se esse fato existisse somente para os outros. Nós não pensamos que um dia morreremos; os outros, eles sim. A visita aos cemitérios, a presença aos sepultamentos e à missa das exéquias merecem a devida atenção, mesmo das pessoas que não costumam pôr em prática a fé cristã ou não a possuem. Esses atos meritórios comumente se restringem ao que ocorre com o outro, não se estendendo à realidade pessoal. Nem tampouco algo de tamanha riqueza, capaz de mudar nosso comportamento, levando-nos a observar os mandamentos do Senhor.

A verdade de fé que integra o conjunto da doutrina cristã, ensinada por Jesus e garantida pelo Magistério Eclesiástico através dos séculos, é que o homem morre uma só vez. Claríssimo o ensino da Epístola aos Hebreus (9,27): "E como é um fato que os homens devem morrer uma só vez, depois do que vem um julgamento". A vivência dessa verdade nos pressiona em favor de uma vida segundo as diretrizes de Jesus, sem esperarmos a correção de nossas falhas através de consecutivas e hipotéticas reencarnações. A crença em uma seqüência de existências contraria a fé cristã. A morte - uma só - nos abre as portas da eternidade, prêmio de nossa fidelidade a Cristo Jesus Ressuscitado. Essa verdade deve ser reafirmada ao recordarmos nossos parentes e amigos que nos precederam na Casa do Pai.

O Dia de Finados nos oferece uma oportunidade rara para o reencontro com as sábias lições que nos são oferecidas pela certeza da morte e a incerteza de quando virá. Diz a Escritura: "Devemos estar sempre vigilantes pois não sabemos nem o dia nem a hora" (Mt 25,13). Ao abrir os olhos para a luz, o recém-nascido recebe uma sentença absolutamente irrecorrível. Esse sopro vital que anima o corpo, desde sua concepção, é marcado com a Cruz de Cristo, que lhe assegura a imortalidade, a ressurreição final. Diante das milhares de sepulturas dos que já passaram por este momento, extraordinárias e fecundas reflexões vêm à inteligência e atingem o coração do ser humano. Esses momentos são fecundos, pois alicerçam certezas, fazem brilhar a verdade em todo o seu fulgor, geram esperança e opõem obstáculos à pressão que o mundo, afastado de Deus, exerce sobre as pessoas. Como tudo se transforma em torno de nós e quando a força do instinto leva o ser humano por caminhos desastrosos, cresce o número dos dependentes da droga e da atração do sexo em direção oposta à lei de Deus. A meditação de um cemitério contribui para fortalecer o equilíbrio diante das tendências de um mundo imerso no pecado. Os corpos que ali aguardam a ressurreição final nos falam, com extraordinária eloqüência, do além, em favor de um comportamento moral segundo os ensinamentos de Jesus.

A morte não constava da estrutura inicial da criação. Diz São Paulo, escrevendo aos Romanos (5,12): "Eis por que, como por meio de um só homem, o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, assim ela passou a todos os homens, porque pecaram". Essa doutrina, para o cristão, está intimamente vinculada à vitória de Cristo, que nos faz participar de sua própria Ressurreição. Aí, tocamos no âmago de nossa fé. Diz São Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé" (1 Cor 15,13). Essa modalidade do plano divino explica o traumatismo que sempre acompanha a morte. Por isso, somente a fé é o verdadeiro lenitivo, particularmente, quando ela arranca de nosso convívio parentes e amigos. A sabedoria nos leva a aproveitar esta situação, fruto do pecado, para alcançarmos, pela prática das virtudes, um crescimento segundo o modelo: Jesus Cristo. São Paulo nos fala, na mesma Epístola, de nossa vitória, que será facilitada pelas lições que nos oferece o Dia de Finados: "Portanto, que o pecado não impere mais em vosso corpo mortal, sujeitando-vos às suas paixões (...) Oferecei vossos membros como armas de justiça a serviço de Deus. E o pecado não vos dominará, porque não estais debaixo da lei, mas sob a graça!" (Rm 6,12-14).

Outra grande lição do Dia de Finados é a transitoriedade de tudo o que nos rodeia no mundo em que vivemos. Uma profunda convicção da precariedade do poder, do dinheiro, da saúde, enfim de nossa existência, nos ajuda fortemente a viver segundo a lei de Deus e a acreditar firmemente - até com sacrifício da própria vida - na doutrina que Ele veio trazer ao mundo, para a salvação de todos. A conseqüência é uma conversão que nos conduz a uma intensa paz interior, que vem de Deus e a Ele nos leva.

A celebração das exéquias, em geral, e o Dia de Finados, em particular, merecem especial atenção dos que atuam no campo pastoral. Além da riqueza espiritual sempre atuante junto aos praticantes da fé cristã, são de muita eficácia junto aos que se distanciam das práticas religiosas. Pelos fatores culturais e nossa tradição cristã, pessoas alheias à religião se dispõem a praticar esses atos, levados pela solidariedade com os que sofrem pela morte de parentes, amigos, ou movidos pela saudade dos entes queridos que já se foram. Por isso, a 4ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, reunida em Puebla, México, de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979, ao tratar da liturgia, oração particular e piedade popular, nas Conclusões (nº 946), recomenda: "Aproveitar, como ocasião propícia à evangelização, a celebração da Palavra nos funerais".

O Concílio Vaticano II, em Gaudium et spes (nº 18) diz que a fé cristã nos dá uma resposta à ansiedade acerca de nosso destino futuro. "Ao mesmo tempo, oferece possibilidade de comunicar-se, em Cristo, com os irmãos queridos que a morte já levou, trazendo a esperança de que eles tenham alcançado a verdadeira vida junto de Deus".

Dom Eugenio Sales, arcebispo emérito do Rio

Ser Humilde


Para se fazer a vontade de Deus é preciso antes de tudo ser humilde, “pobre de espírito” como pediu Jesus

A Igreja, sempre iluminada e assistida pelo Espírito Santo, em sua experiência bi-milenar, nos ensina que os piores pecados são aqueles que ela chama de “capitais”. Capital vem do latim “caput”, que quer dizer cabeça. São pecados “cabeças”, isto é, que geram muitos outros.

Assim como, por exemplo, a capital de um estado ou de um país, é de onde procedem as ordens, decisões e comandos, assim também, desses pecados “cabeças”, nascem muitos outros. Por isso eles sempre mereceram, por parte da Igreja, uma atenção especial. São sete: soberba, ganância, luxúria, gula, ira, inveja e preguiça. Houve um santo que disse que, se a cada ano vencêssemos um desses sete pecados, ao fim de sete anos, seríamos santos. Portanto, vale a pena refletir sobre eles, a fim de rejeitá-los, com o auxílio da graça de Deus e de nossa vontade. O primeiro, e sem dúvida o pior de todos, é a soberba. É o pior porque foi exatamente o que levou os anjos maus  a se rebelarem contra Deus, e levou Adão e Eva à desobediência mortal.

A soberba consiste na pessoa sentir-se como se fosse a geradora dos seus próprios bens materiais e espirituais.

Acha-se cheia de si mesma, pensa, melancolicamente, que é a própria autora daquilo que tem ou que faz de bom, e se esquece de que tudo vem de Deus e é dom do alto, como disse São Tiago: “Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai  das luzes” (Tg 1,17).

O soberbo se esquece que é uma simples criatura, que saiu do nada pelo amor e chamado de Deus, e que, portanto, Dele depende em tudo. Como disse Santa Catarina de Sena, ele “rouba a glória de Deus”, pois quer para si as homenagens e os aplausos que pertencem só a Deus, já que Ele é o autor de toda graça.

A soberba é o oposto da humildade. Essa palavra vem de “humus”, daquilo que se acha na terra, pó. O humilde é aquele que reconhece o seu “nada”, a sua contingência, embora seja a mais bela obra de Deus sobre a terra, a sua glória, como dizia santo Irineu.

Foi a soberba que perdeu a humanidade, foi a humildade que a salvou. São Leão Magno, Papa e doutor da Igreja, garante que: “Toda a vitória do Salvador dominando o demônio e o mundo, foi iniciada na humildade e consumada na humildade!”

Adão e Eva sendo criaturas quiseram “ser como deuses” (Gn 3,5), Jesus, sendo Deus, fez-se como a criatura. Da manjedoura à cruz do Calvário, toda a vida de Jesus foi vivida na humildade e na humilhação. São Paulo resume isso na carta aos filipenses: “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fil 2,6-8).

Pela humildade e pela humilhação Jesus se tornou o “novo Adão” que salvou o mundo (Rm 5,12s). Maria, a mãe do Senhor, tornou-se a “nova Eva”, ensina a Igreja, porque na sua humildade destruiu os laços da soberba da primeira virgem. Ela disse: “Ele olhou para a humildade de sua serva”.(Lc 1,39)

Muitos cristãos são cheios de boas virtudes, mas infelizmente tornam-se “inchados”, pensando infantilmente que essas boas virtudes são méritos próprios e não graças de Deus, para serviço dos outros. Deus disse a Santa Catarina que: “o pecador, qual ladrão, rouba-Me a honra, para atribuí-la a si mesmo”.

São Paulo pergunta aos corintios: “O que há de superior em ti? Que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias, como se o não tivesses recebido?” (1 Cor 4,7).

Como ninguém, o Apóstolo sentia em si as misérias humanas, convivendo com as riquezas da graça de Deus. Ele disse aos corintios: “Temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provem de Deus e não de nós” (2 Cor 4,7).

É de Santo Agostinho a expressão: “Eis a grande ciência do cristão: conhecer que nada é e nada pode”.

Ser humilde é ser santo, é viver o oposto de tudo isso: é saber descer do pedestal, é não se auto-adorar, é preferir fazer a vontade dos outros do que a própria, é ser silencioso, discreto, escondido, é fugir das pompas e dos aplausos.

São João Batista foi modelo dessa humildade e nos ensinou a sua essência. Ao falar de Jesus, ele disse: “Importa que Ele cresça e que eu diminua!” (Jo 3,30).

Isto diz tudo. Quando Jesus iniciou a sua vida pública, João o apresentou para o povo: “eis o Cordeiro de Deus”, e desapareceu, até ser martirizado no cárcere de Herodes. Que lição de humildade! Também Nossa Senhora, sendo, “a Mãe do Senhor” (Lc 2,43), fez-se “a escrava do Senhor” (Lc 1,38).

Prof. Felipe Aquino